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Processos

Engenharia de Processos em uma Empresa de Distribuição de Energia Elétrica

Julio Cezar de Freitas

Ex-aluno de Pós-Graduação em Engenharia de Processos do Ietec.
Engenheiro eletricista graduado em 1986 pela Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora, atua na empresa CEMIG D, companhia distribuidora da Companhia Energética de Minas Gerais, no cargo de Engenheiro de Sistema Elétrico da Superintendência de Manutenção da Distribuição.


1.    Introdução
1.1.    A empresa CEMIG D
A Cemig D é uma empresa distribuidora de energia elétrica. Para isto, possui 394.169 quilômetros de redes de distribuição, sendo 85.480 em área urbana e 308.689 de redes rurais. Conta, ainda, com 16.376 km de linhas de subtransmissão (alta e média tensão). Sua área de atuação abrange 774 dos 853 municípios de Minas Gerais. Para garantir o atendimento, conta com uma equipe de 8.064 empregados. O grande desafio nos últimos anos foi a adequação da gestão da Empresa ao novo marco regulatório do setor de energia, implementado a partir de 2003, que introduziu variáveis novas no modelo vigente, a partir da assinatura dos contratos de concessão na área de distribuição de energia elétrica. Na primeira revisão tarifária, foi adotada uma abordagem nova na definição das tarifas, com a utilização de parâmetros e de conceitos de custos eficientes, prudência nos investimentos e critérios de remuneração, como empresa de referência, base de remuneração e custo de capital, entre outros.

1.2.    Eficiência – exigência da regulação

Um dos principais fatores que motivaram grandes alterações
na área de distribuição nos últimos anos foi a implementação do modelo da empresa de referência pela Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL, que delimita os custos da Distribuição. Esta empresa de referência é uma forma da Agência atuar sobre o monopólio natural, uma característica que impede a competição na parte de infra-estrutura, também chamada de fios: numa determinada área geográfica é feita por apenas uma empresa, não se pode duplicar as linhas, subestações, redes de distribuição.  A empresa de referência é uma empresa fictícia, criada para competir com a empresa distribuidora real, e que possui parâmetros de custos que a Agência Reguladora atribui em função das características da área de concessão e considera eficientes. As tarifas são calculadas a partir dos parâmetros de custo da empresa de referência, para garantir uma remuneração das Distribuidoras em torno de 9,95% a.a.. Evidentemente, as empresas que tiverem custos acima dos valores da empresa de referência terão remuneração abaixo deste valor, comprometendo a rentabilidade dos acionistas.

1.3.    Processos da CEMIG D

A empresa CEMIG D está organizada por processos. Neste artigo serão abordados alguns destes processos oportunidades de uso das técnicas da engenharia de processos na busca da eficiência:
- Relacionamento Comercial
- Operação da Distribuição
- Manutenção da Distribuição
- Serviços da Distribuição
- Planejamento e Expansão da Distribuição
Os 7 desperdícios
Taiichi Ohno, pioneiro no Sistema Toyota de produção classificou as perdas no processo de produção em 7 categorias:
- excesso de produção
- perda de tempo por espera
- perda no transporte desnecessário
- perda no processamento inadequado
- perda por estoque desnecessário
- perda por movimentos desnecessários
- perda na fabricação de unidades com defeito/retrabalhos
Quando se pensa em uma unidade fabril como uma fábrica de automóveis estes desperdícios são facilmente correlacionados com as etapas produtivas, sendo alvo das metodologias aplicadas para melhoria dos processos produtivos. Eles precisam ser identificados e reduzidos de forma a alcançar a eficiência dos proecssos. Muitos deles estão também presentes nas empresas prestadoras de serviços, como uma empresa distribuidora de energia, como mostraremos a seguir.

2.    Melhorias no Processo de Serviços

2.1. Característica do Processo: ele objetiva executar as atividades de Construção, ligação, manutenção preventiva e corretiva, dentre outras. Vamos abordar neste artigo a atividade de manutenção corretiva, indispensável para manter o fornecimento de energia elétrica aos clientes da CEMIG D.
Anualmente ocorrem mais de 300.000 interrupções no fornecimento de energia elétrica na área de concessão da CEMIG D. Para o restabelecimento do fornecimento, o processo de Serviços da Distribuição dispõe de equipes próprias e terceirizadas que são distribuídas em bases operativas em toda área de concessão, e se utilizam de veículos como caminhonetes equipadas com escadas, ferramentas diversas e materiais. Para cada uma destas interrupções, as equipes se deslocam de suas bases operativas até o local onde está o dispositivo de proteção que atuou para identificar a causa, proceder a correção e religar a proteção, restabelecendo o fornecimento.

2.2. Localização das bases operativas – uma engenharia de layout:

Como boa parte do tempo das equipes é gasto no deslocamento entre um serviço e outro, a localização das bases operativas precisa ser feita de forma a minimizar os deslocamentos. É similar a construção do layout de uma unidade fabril, porém mais complexo, pois tem que levar em conta a previsão de serviços a executar na manutenção corretiva e também os outros serviços que as equipe executam. Bases operativas mal localizadas podem aumentar o deslocamento, reduzindo a capacidade de execução de serviços das equipes, e conseqüentemente o tempo médio de atendimento. Também fundamental é a forma de despacho dos serviços. A seqüência de atendimento deve procurar reduzir os deslocamentos. Sistemas de despachos dinâmicos vêm sido desenvolvidos para que este objetivo seja alcançado, levando em conta a distância entre os serviços e a localização real de cada equipe, atribuindo o serviço àquela que está mais próxima e que mais rapidamente conseguirá atuar.

2.3. Polivalência – um recurso necessário:

Uma característica da ocorrência das interrupções acidentais no fornecimento é sua sazonalidade. Ocorrem cerca de duas vezes mais interrupções nos meses de chuva que nos meses do período seco. Como resultado, a colocação de duplas que só atuam na manutenção corretiva leva a um problema: elas não têm a mesma demanda de serviços ao longo dos meses. Há muita demanda de serviços nos meses de setembro a março, que se reduz drasticamente nos outros meses. Assim, se estas equipes só fizerem manutenção corretiva, terão uma baixa produtividade nos meses secos. Para contornar este problema, usa-se concentrar as férias, os treinamentos e atividades similares nos meses do período seco. Porém, nem sempre isto é suficiente. A melhor ação é o uso da polivalência. Nos meses secos, desloca-se algumas equipes da manutenção corretiva para atuar na manutenção preventiva do sistema elétrico da área em que atuam. Resolve-se assim o problema de produtividade e ainda se dá ênfase na manutenção preventiva, aumentando as equipes disponíveis para executá-la. Consegue-se com isto também colocar um número maior de equipes dedicadas a manutenção corretiva no período úmido, com benefícios óbvios para os tempos de reparo que está diretamente relacionado a quantidade de equipes disponíveis,  visto que estará minimizado o problema de escassez de serviços no período seco.

2.4. Evitando retrabalhos – Foi verificado que muitas vezes o atendimento às interrupções acidentais é feito de forma inadequada: a equipe restabelece o fornecimento de energia atuando sobre a proteção, mas falha por deixar de atuar na causa da interrupção. Em função disso, têm-se uma reincidência da interrupção no fornecimento de energia pouco tempo depois. Este problema está sendo combatido de duas formas: com uso de sistema de detecção e tratamento de reincidências pelas equipes do processo manutenção e do processo execução de serviços. Caso um dispositivo de proteção opere mais que um número de vezes pré-estabelecido em determinado período, se trata o dispositivo como uma “reincidência”, exigindo ações das equipes de serviços. Simultaneamente, está se trabalhando na sensibilização das equipes, de modo que elas procurem aprimorar sua capacidade de encontrar as causas no primeiro atendimento e assim eliminá-las neste primeiro atendimento, evitando a reincidência.

2.5. Monitorar e atuar nas causas de viagens improdutivas – fundamental. O índice de viagens improdutivas pode facilmente chegar a 30% dos serviços realizados. Trata-se de um desperdício que consome os recursos e tem diversas causas. Citaremos aqui apenas uma delas, a título de exemplo: no contato com o Call Center, do processo de relacionamento comercial, o cliente reclama falta de energia que tem como causa o desligamento do disjuntor da unidade consumidora devido a sobrecarga ou defeito interno. O serviço é despachado para a equipe que ao chegar ao local constata o problema acima, que poderia ser resolvido pelo próprio cliente. A solução, neste caso, é o atendente se certificar com o cliente que ele fez uma verificação de seu disjuntor antes de registrar a reclamação de falta de energia. Uma característica comum deste desperdício é que as causas, e portanto, as soluções envolvem sempre mais de um processo, exigindo atuação conjunta.

3.    Melhorias no Processo Manutenção e Operação

No item anterior foi comentado o tratamento de reincidência, que é feito de forma conjunto pelo processo manutenção e o processo de serviços. Na CEMIG D, o processo manutenção tem focado a manutenção preventiva, visando evitar a ocorrência de manutenções corretivas emergenciais. Está demonstrado que numa empresa de distribuição de energia elétrica deixar de investir em manutenção  preventiva leva a gastos fora de controle na manutenção corretiva, além de degradar os índices de continuidade do fornecimento de energia elétrica. Este conceito da Manutenção Produtiva Total (TPM) vale também nas atividades das empresas distribuidoras.

4.    Impactos Ambientais na Distribuição de Energia Elétrica e o processo de Expansão da Distribuição
A cada nova linha de distribuição, nova subestação de distribuição, a empresa Distribuidora tem que conseguir os licenciamentos ambientais para o empreendimento. Mesmo sendo considerada uma atividade com baixa probabilidade de poluição, as exigências para estes licenciamentos vêm aumentando na mesma proporção que a sociedade toma mais consciência da necessidade da preservação ambiental.
A abordagem do tema no tópico V do curso de aperfeiçoamento em engenharia de processos foi bastante oportuna, mostrando a importância dos gerentes de empreendimentos estarem familiarizados com a forma de trabalho dos órgãos ambientais, os prazos que envolvem a concessão de licenças e algumas características que costumam envolver os condicionantes ambientais. As legislações aplicadas, suas características estarem em constante mutação, exigindo acompanhamento de perto dos gestores das empresas, foi também apropriadamente abordada.

5.    Conclusão
Desde que a CEMIG implantou o processo de qualidade total, ainda na década de 90, percebe-se que é difícil encontrar na literatura relatos de aplicação das ferramentas de melhoria dos processos fora do âmbito das empresas industriais. Por outro lado, a indústria automobilística é o alvo da maioria dos exemplos. Entretanto, ficou demonstrado neste artigo que a abordagem por processo e as melhorias nestes processos focando a eliminação dos desperdícios são essenciais numa empresa distribuidora, e por extensão, também a todas as empresas que atuam no ramo de serviços. 


6.    Fontes:
•    IMAI, Masaaki, Kaisen: A Estratégia para o Sucesso Competitivo. São Paulo: IMAM, 1988.
•    Artigo: Baixando os custos e melhorando a produtividade. 

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