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Sustentabilidade

Crescimento e bem-estar

Caio Megale

Caio Megale é mestre em economia pela PUC-RJ e economista do Itau-Unibanco

Índice vai identificar quanto do desenvolvimento se traduziu em boa qualidade de vida. Por Caio Megale

Os resultados econômicos do Peru têm merecido destaque entre os países da América Latina.Nos últimos cinco anos, o país cresceu a uma média de 7,2% ao ano, com inflação média inferior a 3%.Ainda assim, nas últimas eleições presidenciais os candidatos que representavam continuidade do modelo econômico — Alejandro Toledo e Pedro Pablo Kuczynki — não chegaram sequer ao segundo turno. Ganhou Ollanta Humala, com uma plataforma mais voltada às políticas sociais e à distribuição de renda.

Este foi apenas mais um sinal de que as medidas tradicionais de performance econômica já não guardam tanta correlação com o bem-estar das pessoas. Há muitas décadas os economistas já pensam em um
conceito amplo de bem-estar, sintetizado no que chamam da “utilidade do consumidor”. Mas, por simplificação, acabam utilizando o próprio nível de consumo com proxy dessa “u t i l i d a d e”. Ou seja, maximizar a utilidade do consumidor significa maximizar a própria quantidade de bens e serviços consumidos.


O argumento era de que o crescimento econômico acabava trazendo consigo melhor distribuição de renda, melhora nas condições sanitárias, maior tempo de lazer (pela renda mais alta), menor índice de violência
urbana, etc. Mas ele parece não se sustentar. Evidências recentes, por exemplo, mostram que a violência nos EUA vem se reduzindo apesar da recessão pós-crise de 2008/9; ao passo que a criminalidade aumentou deforma preocupante nos estados do Nordeste brasileiro, região do país que mais cresceu nos últimos anos.

Outro parâmetro que põe em cheque a autossuficiência do crescimento do PIB (e do consumo) como medidor de bem-estar é a sustentabilidade ambiental.
Durante as últimas décadas, as questões climáticas não pareciam ser restrição para o crescimento econômico, ou seja, crescer mais não implicava piora na qualidade ambiental. No entanto, esse “almoço
grátis” pode estar batendo no limite. Essa parece ser uma das conclusões do interessante livro “O que os economistas pensam sobre sustentabil i d a d e”, organizado por Ricardo Arnt. No passado, o crescimento era mais relacionado com o bemestar porque não cobrava um preço caro em termos de impactos
ambientais. Agora esse equilíbrio parece mais delicado.O consumo acabará sendo freado bruscamente por mecanismos de mercado —aumento expressivo do preço de produtos mais danosos ao meio ambiente — ou por questões naturais. De qualquer forma, comocoloca André Lara Resende, “a Terra vai se tornar menos hospitaleira para a humanidade”.

Mas, como medir melhor a qualidade de vida das pessoas? Uma iniciativa pioneira nesta área é do pequeno reino do Butão, na Ásia.
Há alguns anos, a política econômica do país deixou de acompanhar o PIB (Produto Interno Bruto) e passou a seguir a FNB — Felicida de Nacional Bruta. O indicador é calculado com base em questões objetivas
como o uso do tempo disponível, saúde e educação; como com itens mais subjetivos como bem estar psicológico, relacionamento social, balanço emocional e espiritual. Esses são coletados com base em
questionário distribuído ao público. Para entender como se relacionam tópicos objetivos e subjetivos, um exemplo é a educação. Para os butaneses, medidas tradicionais de qualidade educacional como as notas dos alunos e a qualidade dos professores são importantes. Mas é igualmente importante que seja bom o
ambiente na sala de aula.

Outra iniciativa na área é o recém lançado compêndio de indicadores de bem estar da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Trata-se de um ranking comparativo entre diversos países, baseado na compilação de indicadores de diversas áreas que determinam o dia a dia das pessoas: renda e emprego, moradia, saúde, vida balanceada,educação, vida social, engajamento cívico, meio ambiente e segurança. Além de também lançar mão de pesquisas subjetivas, com perguntas do tipo “qual a nota, de 0 a 10, que você dá para sua qualidade de vida?” A publicação completa, com a caracterização mais detalhada de cada um desses itens pode ser encontrada no site da OCDE, sob o título de “Better Life Compendium”.

 Nós na equipe econômica do Itaú-Unibanco também estamos desenvolvendo um indicador de bem-estar, ou de felicidade, para a economia brasileira. O objetivo é justamente tentar identificar, quanto do crescimento mais acelerado que o país vive desde o início da década passada efetivamente se traduziu em qualidade de vida dos brasileiros. Talvez o maior desafio em um projeto como esses é deixar de lado o viés pessoal de quem o constrói. Voltemos, por exemplo, ao
ranking montado pela OCDE. Segundo os resultados, o Canadá é um dos países onde melhor se vive no mundo. Isto posto, o esperado seria que pessoas do mundo inteiro fizessem filas nas suas respectivas embaixadas canadenses, para conseguir visto permanente para morar no país. No entrando, o que se sabe é que o Canadá tem um programa aberto de imigração, com o objetivo de trazer trabalhadores qualificados para o país.
 

Da mesma forma, a TV estatal Norte Coreana anunciou recentemente os resultados de uma pesquisa sobre felicidade nacional.Os 5 países melhores colocados foram China, Coreia do Norte, Cuba, Irã e Venezuela. Também não são exatamente países onde há filas na imigração. Na rabeira do ranking, em 203º lugar aparecem... os EUA, naturalmente.
 

Em outras palavras, o indicador precisa ser feito com base nas preferências dos pesquisados, e não do pesquisador. Uma dificuldade aparece pois, diferente de pesquisas como a da inflação, onde o peso de cada item é feito com base na Pesquisa de Orçamento Familiar feita sistematicamente pelo IBGE, não há uma pesquisa sobre o que deixa o brasileiro efetivamente feliz. O que é mais importante: qualidade do ar, índices de criminalidade, saneamento básico ou estabilidade de emprego?

 São questões que nossas pesquisas ainda vão ter que responder. Mas é importante ter em mente que, apesar dos avanços recentes, a população brasileira ainda vive, em média, em condições precárias. Entre 2003 e 2009, 36 milhões de brasileiros ascenderam às classe média. Mas 80 milhões ainda vivem nas classes D e E, o que significa que vivem em domicílios com renda mensal abaixo de R$ 1600. Ademais, segundo o IBGE, cerca de 30% da população brasileira ainda vive sem acesso a rede de esgoto e fossas sépticas. Dessa forma, é muito provável que renda/estabilidade de emprego e saneamento básico tenham peso desproporcional no índice do bem estar do brasileiro.


Em suma, a procura por uma medida mais ampla de bem estar e satisfação das pessoas é importante para que as políticas públicas não visem apenas questões de crescimento e consumo. Mas, para ter relevância, é importante que efetivamente reflita o anseio da sociedade, e não a utopia do pesquisador. Se não, é melhor ficar com o bom e velho PIB.

 

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