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:: Editorial

Os fazendeiros salvarão o planeta?

Ronaldo Gusmão

Diretor executivo do Ietec e coordenador geral da Ecolatina - Conferência Latino Americana sobre Meio Ambiente e Responsabilidade Social.

Quando 2500 cientistas de 130 países apresentaram os resultados dos trabalhos sobre o aquecimento da Terra, no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas - IPCC/ONU, concluiu-se que é o homem o único responsável pelos danos ambientais causados ao planeta.

Os estudos detalham como a atividade humana contribuiu para o aumento de 0,7º Celsius na temperatura do planeta nos últimos 100 anos. Estamos vivendo o período mais quente do planeta e a conseqüência da elevação na temperatura da Terra será o comprometimento total dos recursos naturais no prazo máximo de 43 anos.

Em 1986, chegou-se ao limite da capacidade do planeta. Extraímos mais recursos naturais do que a natureza era capaz de repor. A cada ano, criamos um déficit ambiental impossível de ser pago pelo planeta. Vinte e um anos depois, consumimos 25% além que a capacidade de regeneração da Terra.

As conseqüências do descaso com o Meio Ambiente hoje tornam-se evidentes. Na década de 60, 7 milhões de pessoas foram afetadas pelas enchentes. Hoje, este número chega a 150 milhões. Em 2002, ocorreu o primeiro furacão no Brasil. Calor intenso também na Europa, onde o verão de 2003 vitimou de junho a julho 26 mil pessoas. Fomos testemunhas da catástrofe ocorrida em Nova Orleans, vitima do Furacão Katrina, em 2005.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, afirmou na abertura da reunião da Assembléia Geral da ONU, ocorrida no final de setembro, que "o tempo para dúvidas já passou", ao se referir aos supostos efeitos do aquecimento global. Se não atentarmos para os avisos que nos são dados, deixaremos uma triste herança para as futuras gerações.

Diante das ocorrências, o microclima é uma das alternativas de adaptação e mitigação capaz de auxiliar na reversão do preocupante quadro ambiental. As cidades ocupam 2% da superfície do planeta. Condomínios, chácaras e casas de campo, localizadas no entorno urbano, devem se pautar pelo mínimo de desmatamento.

Mas, e os fazendeiros com isso? O Brasil já é o quarto maior emissor de gases de efeito estufa no mundo. Cerca de 70% dessa emissão vêm dos desmatamentos e queimadas praticadas em nosso território. Hoje, a lei determina que 20% das terras de uma propriedade rural são reservas legais (esse percentual é de 80% na região amazônica).

O ideal é que proprietários rurais sejam estimulados a conservar uma área além da prevista. Seriam remunerados por prestarem serviços ambientais ao homem e ao planeta. Os fazendeiros seriam responsáveis pela preservação das matas e das nascentes localizadas em suas propriedades.

A questão da água, que aparentemente não afeta os brasileiros, deveria ser encarada com forte preocupação. A legislação atual determina que as nascentes de água são de propriedade da União. Contudo, isto não é o suficiente para manter a sua qualidade e quantidade.

A alternativa seria inserir, mais uma vez, os fazendeiros na missão de preservar nossos recursos hídricos. Nenhuma atividade deveria ser permitida nos locais onde existem nascentes de água, principalmente próximo aos grandes centros urbanos.

Certo de que a parceria com os proprietários rurais pode, de fato, ser importante na preservação do meio ambiente, o Governo do Estado do Amazonas lançou uma política de mudanças climáticas que irá remunerar quem preservar a floresta. O Fundo Florestal criará uma espécie de "bolsa-floresta", que será paga mensalmente a 8.500 famílias do entorno das unidades de conservação. A estimativa é que em 2010 cerca de 60 mil moradores recebam esse benefício.

A Carta de Belo Horizonte, documento formulado durante a 7ª edição da Ecolatina - Conferência Latino-Americana sobre Meio Ambiente e Responsabilidade Social, que contou com a presença de 5.200 participantes de 31 paises, que sugeriram entre 15 propostas a construção de indicadores de resultados de assistência técnica de extensão rural deve privilegiar a transição agro-ecológica, associada a dimensão social e ambiental. Desta forma no atual contexto de aquecimento global é necessário dar o devido valor aos proprietários rurais.

Os fazendeiros salvarão o planeta com certeza, e nós, os "urbanóides", devemos remunerá-los por isso.
 

 

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