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Mudanças Climáticas

Repartir para o consumo sustentável

Marcio Pochmann

Marcio Pochmann é presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Unicamp. Doutor em Ciência Econômica pela Unicamp, Pochmann foi secretário municipal do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade de São Paulo (2001-2004). É autor de “A Batalha Pelo Primeiro Emprego”,” O Emprego no Desenvolvimento da Nação”, “O Emprego na Globalização” e “A Década dos Mitos” entre outros.

Jornal Valor Econômico

As resistências à mudança por parte do sistema econômico dominante terminam por dar maior curso ao aprofundamento da crise ecológica atual. Sem a revisão do padrão de crescimento do consumo material global, prossegue a tendência do desaparecimento da abundância dos recursos naturais e da elevação das emissões de gases nocivos ao meio ambiente, provocando a mudança climática e o aumento da temperatura média da terra.

Das 45 mil espécies atualmente catalogadas, quase 40% encontram-se ameaçadas de extinção. Somente nas últimas três décadas, o planeta perdeu um terço de suas florestas naturais, enquanto a quantidade retida de água por meio de barragens tornou-se três vezes superior à área ocupada por florestas no mundo.
Ao mesmo tempo, a conversão de terras para a exploração econômica desde 1980 tornou-se bem maior que o verificado no acumulado nos séculos XVIII e XIX. Para o crescimento de 53,3% da população mundial entre 1980 e 2010, a área ocupada pela urbanização simplesmente dobrou.
Percebe-se por que a generalização da economia de alto carbono impacta o comportamento da temperatura global, com a elevação radical da concentração de dióxido de carbono na atmosfera. A elevação da renda per capita vem, em geral, acompanhada do aumento da intensidade da emissão de carbono na atmosfera, cuja concentração cresce de 275 partículas por milhão (ppm) antes do ciclo de industrialização para próximo de 400 ppm atualmente. A concentração de gás metano, que girava em torno de 720 a 780 partículas por bilhão (ppb) entre os anos 1.000 e 1.800, passou para 1.750 ppb nos anos 2.000. A consequência direta tem sido o movimento de aquecimento global.
Nesse contexto, os pobres são os que mais sofrem os efeitos da crise ecológica, pois vivem, geralmente, nas áreas de maior poluição e excluídos das condições de vida decente, sem acesso adequado a moradia, saneamento, energia elétrica. Talvez por isso os maiores defensores das teses do limite da produção e, por consequência, a redução do consumo dos outros sejam justamente os ricos.
Na realidade, o modo de vida das classes ricas assenta-se no consumo ostentatório e que degrada consideravelmente a ecologia, esvaziando o futuro das próximas gerações. Isso porque o padrão de consumo ostentatório das camadas ricas da população não resulta da busca ao atendimento das necessidades materiais da existência humana, mas ao interesse de se diferenciar dos demais.
Conforme definiu Thorstein Veblen na passagem do século XX (A Teoria da Classe Ociosa), a rivalidade ostentatória revela o desejo dos ricos de serem reconhecidos como melhores que os outros. E, por conta disso, o consumo ostentatório expressa-se insaciável, gerando necessidades materiais indefinidas e resultando em referência cultural a ser imitada por parte restante da população.
Assim, o padrão de consumo dos ricos tornou cada vez mais grave a crise ambiental no planeta. A saída, portanto, não pode ser a contenção do crescimento da demanda material dos pobres, mas a reversão do modelo de vida dos ricos assentado no consumo ostentatório.
O crescimento da produção permite elevar o nível geral de riqueza, enquanto requisito básico para melhorar a sorte dos pobres. Mas o aumento da riqueza sem a sua redistribuição justa favorece justamente os ricos, impulsionando a prevalência do padrão de consumo ostentatório.
Atualmente, os países ricos representam um quinto da população mundial e detêm 80% da riqueza global. A perspectiva das nações não ricas para enfrentar a crise ecológica global não pode ser a mesma defendida pelos ricos.
Certamente o avanço tecnológico pode contribuir para que o padrão de vida urbano reduza o grau de emissão de gases nocivos à biosfera, bem como altere o conteúdo fortemente material do consumo. Mas cabe indagar a respeito da propriedade dos novos avanços tecnológicos quando cerca de dois terços dos investimentos em tecnologia encontram-se em poder das grandes corporações transnacionais.
Somente 500 grandes corporações transnacionais controlam a metade da produção mundial, em grande medida voltada ao atendimento do padrão de consumo ostentatório dos ricos e arremedado por muitos não ricos. Nesses termos, tem-se o risco de parte da teorização em torno da chamada economia verde estar a serviço da ocultação, mais uma vez, da manutenção do quadro geral de dominação imposto pelos países ricos. Isso pode estar ocorrendo justamente quando as economias do norte convivem com inegável esvaziamento de suas posições relativas no mundo.
 

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