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:: Editorial

Dia do meio ambiente, pouco a comemorar, muito a sonhar

Ronaldo Gusmão

Presidente do IETEC e coordenador geral da Ecolatina - Conferência Latino Americana sobre Meio Ambiente e Responsabilidade Social.

Se o Brasil pode comemorar alguns avanços na política econômica e nas relações internacionais, precisa refletir sobre a direção que tem escolhido em outra questão tão ou mais fundamental para a sociedade: o trato com o meio ambiente.

É lamentável que um governo que se propalou como social e democrático venha cometendo tantos equívocos na condução da política ambiental, ou peque justamente pela falta dela.

O exemplo mais chocante do descaso com o meio ambiente é o projeto de transposição do Rio São Francisco, que vem sendo imposto pelo governo contra opiniões de especialistas, comunidade científica, moradores da região, representantes da sociedade civil organizada, políticos e até do Ministério Público.

Mesmo diante de estudos que comprovam que existem medidas muito mais eficazes para "matar a sede dos nordestinos", o governo insiste em utilizar essa justificativa para implantar um projeto caro e que vai beneficiar não o pobre, mas sim os grandes latifundiários, que utilizaram a água para os sistemas de irrigação.

Se o interesse fosse, de fato, levar água aos que precisam, seria muito mais eficiente investir em propostas comprovadamente mais viáveis do ponto de vista econômico, social e ambiental. Uma delas são as cisternas de placas, que recolhem água de chuva para o aproveitamento do recurso. Cada uma custa em torno de R$ 1,5 mil reais, e é um programa do próprio governo federal.

Com o dinheiro que o governo se dispõe a gastar com o projeto de transposição seria possível construir mais de 3 milhões de cisternas. E já está provado que as escassas chuvas do sertão são suficientes para o consumo humano e animal.

No saneamento ambiental a coisa piora, segundo o último senso do IBGE o País tem mais de 20 milhões de brasileiros sem acesso à água tratada, mais de 80 milhões sem esgotamento sanitário (temos mais domicílios com telefone fixo do que esgotamento sanitário).

Outra falha desastrosa foi a liberação do cultivo de transgênicos, uma medida que vai contra a tendência mundial. Mesmo os países que admitem as sementes modificadas, como os Estados Unidos, exigem rigorosas medidas de segurança para evitar possíveis contaminações do solo ou dos mananciais hídricos.

No anseio do crescimento econômico e sem a menor preocupação com o destino da natureza, o governo brasileiro permite a plantação de produtos transgênicos, com destaque especial da soja, sem determinar qualquer cuidado com essas sementes ainda tão pouco estudadas no mundo.

Vale lembrar que esse caminho, além de colocar em risco o ambiente brasileiro e a saúde da população, pode, ainda representar um retrocesso econômico, pois mercados importantes, como o europeu, ainda resistem a aceitar os produtos modificados geneticamente.

Além desses equívocos voluntários, o governo atual tem faltado, também, por negligência. É o caso das queimadas, uma técnica medieval e comprovadamente danosa para o próprio agricultor, pois provoca a exaustão do solo. É no mínimo absurdo que a queimada de florestas ainda seja permitido e até licenciado pelos órgãos ambientais que deviam proteger nossas riquezas naturais.

Aliada às queimadas, a devastação de nossas matas naturais – especialmente a Amazônia – causa espanto na comunidade internacional. O recente anúncio dos índices de desmatamento da maior floresta tropical do mundo provocou a indignação em todo o planeta. Nunca nossa Amazônia foi tão agredida. Tudo isso pela gana econômica que provoca o avanço insensato das fronteiras agrícolas sobre nosso maior patrimônio ecológico e nossa maior reserva econômica.

Urge medidas rígidas para se evitar que o Brasil e o mundo perca essa área tão rica em diversidade biológica. Muito se fala em manejo sustentável da floresta, mas a área que já se perdeu ao longo dos anos é mais que suficiente para promover esse uso (26 mil km quadrados só de agosto de 2003 a julho de 2004).

Não se pode mais permitir derrubar uma árvore sequer da Amazônia e o único caminho seria proibir definitivamente as queimadas na região (isso mesmo, moratória nas queimadas na região pelo menos por uns dez anos). É preciso que os homens que definem o destino do Brasil entendam que a floresta vale muito mais em pé, que derrubada. Ainda nem conhecemos todas as riquezas que a mata pode oferecer para nossa própria economia e, principalmente, para a vida de todos os moradores do planeta.

São centenas de espécies que podem ser utilizadas na indústria médica ou mesmo como matéria-prima para diferentes outras atividades, sem serem arrancadas da terra.

Esses erros podem representar perdas irrecuperáveis de nossos ainda abundantes recursos naturais e colocar o País na contramão das nações preocupadas com o destino da humanidade.

É preciso que cada um aja individualmente para mudar essa realidade. É preciso refletir sobre que mundo queremos deixar para nossos filhos. E, nessa luta, exigir daqueles que conduzem o País. Se cada cidadão protestar, pressionar e exigir posturas mais adequadas de nossos políticos – vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e presidente – poderemos sonhar com um ambiente melhor e mais justiça social.

Como nos lembrou a ministra Marina Silva: "só conseguiremos enfrentar e vencer as dificuldades que a realidade nos apresenta se o nosso sonho for mais forte que esta realidade". Mas não deixemos que as palavras se percam ao vento, como parece estar acontecendo com a ministra.

O planeta não suporta mais tanta agressão do homem, e os brasileiros também já não toleram que os interesses políticos sobreponham as necessidades de toda uma nação.
 

 

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