Logomarca IETEC

Buscar no TecHoje

Preencha o campo abaixo para realizar sua busca

IETEC entrevista presidente da CNI

Harley Pinto
Revista IETEC

Na entrevista a seguir, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade, desenha um panorama animador da economia brasileira nos próximos anos, ao mesmo tempo em que demonstra um pragmatismo diante dos problemas e gargalos que possuímos atualmente.

Andrade é enfático na necessidade de praticarmos, à exaustão, a inovação em nossas empresas e processos. “Precisamos arregaçar as mangas para disseminar a inovação. Ela é crucial para a competitividade”, afirma.


O que esperar da economia brasileira nos próximos anos?
O agravamento da crise econômica internacional, especialmente na União Europeia, afetou a economia brasileira. Basta lembrar que, mesmo crescendo, o PIB brasileiro registrou, no segundo trimestre do ano, um aumento de apenas 0,4% sobre o primeiro trimestre. A última estimativa da CNI aponta uma expansão de 2,1% em 2012, com a indústria registrando um aumento de somente 1,6%. É muito pouco. 

Que novos números poderíamos antecipar sobre o desempenho da economia?
Não me arrisco, por enquanto, a cravar números, mas esperamos dados bem melhores a partir de 2013, em parte pelas medidas tomadas pelo governo, principalmente o pacote de concessões em rodovias e ferrovias. A iniciativa atende a uma antiga reivindicação do empresariado, de estimular os investimentos do setor privado em infraestrutura. A exploração do petróleo da camada do pré-sal e as obras para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 são outros instrumentos poderosos para reativar a atividade econômica no país nos anos que virão a seguir.    

Como o senhor vê as mudanças tecnológicas nos processos industriais no Brasil e no mundo atualmente?
O Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer na prática da inovação em comparação com outros países. Numa listagem de 141 países no ranking de inovação, elaborado todo ano pela escola de negócios francesa Insead em parceria com a Organização Mundial da Propriedade Intelectual, vinculada à ONU, o Brasil ocupa a 58ª posição. Está à frente da Índia, colocada na 64ª posição, mas atrás da África do Sul, que está no 54º lugar, e longe do Chile, que registra a 39ª colocação. Precisamos avançar na prática da inovação nas empresas, e rapidamente. Inovar, seja em produtos, seja em processos, é crucial numa concorrência globalmente cada vez mais feroz.  

Inovar é um dos principais meios de incrementar a produção da empresa. Até que ponto o brasileiro encara a inovação como uma necessidade para sua sobrevivência no mercado?
A iniciativa privada está fazendo sua parte.  A MEI, Mobilização Empresarial pela Inovação, movimento coordenado pela CNI para estimular a prática da inovação nas empresas, tem obtido bons resultados.  Numa outra ponta, com recursos da ordem de R$ 1,9 bilhão – são R$ 1,5 bilhão de empréstimo do BNDES e os restantes R$ 400 milhões de verbas próprias –, o SENAI está iniciando um projeto revolucionário. 

Que projeto é esse?
Trata-se da modernização e da ampliação do Programa de Apoio à Competitividade da Indústria Brasileira, que tem como foco inovar e capacitar, atendendo o setor produtivo nas necessidades de pessoal qualificado e de soluções tecnológicas de ponta. Instalaremos 23 Institutos SENAI de Inovação para formar profissionais de nível superior alinhados às necessidades da indústria. Essa rede de inovação vai operar de forma integrada com 38 Institutos de Tecnologia, que, além de manter cursos de educação profissional, inclusive de nível superior, oferecerão às empresas serviços em cadeia e testes laboratoriais.

Como vão funcionar esses institutos?
Eles são uma nova e importante rota para a inovação no Brasil, historicamente baseada em ambiente acadêmico e quase sempre dissociada da indústria. O objetivo dos Institutos de Tecnologia é gerar conhecimento para áreas-chave, como microeletrônica, engenharia de superfície e tecnologia da comunicação e informação, para mencionar somente três.  O fundamental é que os alunos, focados em pesquisa aplicada, serão estimulados a trabalhar na antecipação de tendências tecnológicas. Os novos centros também oferecerão cursos de pós-graduação, proporcionando um salto de qualidade no ensino tecnológico. Queremos atingir quatro milhões de matrículas/ano a partir de 2014 na rede SENAI.

Se a iniciativa privada, como o senhor acaba de detalhar, está fazendo a sua parte no estímulo à inovação, o que falta ao governo fazer?
Com um pouco mais de agilidade, o governo tem, sim, condições de fazer muito melhor o seu papel. A experiência dos países desenvolvidos demonstra que a participação do Estado é fundamental na implementação de uma política eficaz de apoio à inovação. O governo pode, por exemplo, aprimorar o marco legal de apoio à inovação. A Lei do Bem e a Lei da Inovação são bons instrumentos de estímulo, mas devem ser aperfeiçoados, permitindo que os gastos com pesquisa tecnológica e desenvolvimento de inovação tecnológica possam ser abatidos efetivamente em dobro. Para isso, basta alterar o artigo 19 da Lei do Bem. É necessário dar ênfase na formação de recursos humanos qualificados em engenharia e ensino técnico.  O país tem de inverter, no longo prazo, a distorção do gasto no ensino superior ser cinco vezes o gasto na educação básica. O ideal é que os recursos na educação básica cheguem a 5% do PIB em 2022. Enfim, insisto, precisamos arregaçar as mangas para disseminar a inovação. Ela é crucial para a competitividade.

Qual a importância da qualificação profissional para o desenvolvimento da indústria nacional? O empresário brasileiro tem consciência da importância de capacitar seus colaboradores para o sucesso do seu negócio?
Sem mão de obra qualificada, fica difícil praticar a inovação. O empresariado está plenamente consciente disso. Tanto é assim que as pesquisas permanentes da CNI, como a Sondagem Industrial e a Sondagem da Indústria da Construção, têm apontado a qualificação da mão de obra como um dos principais problemas listados pelos empresários. A ação do SENAI, qualificando e estimulando a inovação nas empresas, torna-se, portanto, cada vez mais estratégica para o bom funcionamento da economia e o consequente desenvolvimento do país.

Como é visto o desenvolvimento sustentável pelos empresários brasileiros? 
Não só com bons olhos, mas como parte dos negócios. Pesquisa recente da CNI com 60 executivos da indústria, dos mais diversos setores, revela que a sustentabilidade já faz parte da agenda estratégica das empresas. Como mencionei no encontro sobre sustentabilidade promovido pela CNI na Conferência Rio+20, em junho, a indústria brasileira não trata a sustentabilidade como uma manifestação de boas intenções. Ao contrário, cada vez mais incorpora os princípios da sustentabilidade nos planos de negócios. Sustentabilidade e necessidade de aumento da competitividade andam juntas, hoje, com as empresas buscando sempre formas mais eficientes de uso de insumos e de recursos naturais.

Há exemplos dessa nova postura da indústria?
Muitos. Essa postura explica porque, nos últimos 20 anos, a indústria deixou de ser considerada a vilã dos danos ambientais. A celulose e o papel produzidos no Brasil atualmente, por exemplo, provêm integralmente de florestas plantadas, enquanto a indústria química reduziu em 47% suas emissões de CO2 em 10 anos. Exatamente 97,6% das embalagens de alumínio são recicladas no país, um desempenho invejável, um dos mais altos índices do mundo. A geladeira brasileira consome 60% menos energia do que há uma década e cada automóvel usa 30% menos água no processo de produção. Você sabia que a nossa cotidiana sardinha enlatada, que se compra num supermercado ou numa bodega de beira de estrada, é certificada internacionalmente por critérios para preservação da biodiversidade marinha chancelados pela FAO, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura? 

Quais os principais gargalos ao pleno desenvolvimento da indústria nacional?
A indústria enfrenta obstáculos estruturais, de um sistema tributário perverso e complexo a uma legislação trabalhista anacrônica, que impõe altos custos às empresas, passando por uma infraestrutura deficiente, educação básica de má qualidade, excesso de burocracia. É preciso remover esses gargalos. A crise internacional a que nos referimos no início da nossa conversa, que persiste e se aprofunda em alguns países europeus, estreitou os mercados lá fora e aumentou a concorrência das importações aqui dentro. Se não formos competitivos, não sobreviveremos.

Indique este artigo a um amigo

Indique o artigo