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Gestão

A indústria e o desenvolvimento sustentável

Hayrton Rodrigues do Prado Filho

Diretor Editorial da Revista Banas Qualidade

Revista Banas Qualidade, novembro de 2003

O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades presentes sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias e contém dois elementos essências: o conceito de necessidade, sobretudo as fundamentais dos mais pobres, que devem receber a máxima prioridade; e a noção das limitações que o estágio da tecnologia e da organização social impõem ao meio ambiente, impedindo-o de atender às necessidades presentes e futuras.

Alguns setores produtivos, como a mineração, siderurgia, papel e celulose, petroquímica e a indústria cimenteira, por exemplo, são mais poluentes do que outros. Dessa forma, qualquer processo de desenvolvimento só será válido se for baseado na sustentabilidade, pois sem isso acontecem sucessos imediatos, mas fatalmente o futuro ficará comprometido. Qualquer setor industrial que provoque a exaustão de seus recursos naturais em nome da riqueza ao curto prazo, causará dano à sociedade. Se o recurso for fundamental e não reposto, quer pela impossibilidade física, quer pela falta de meios financeiros, é possível que a pobreza se instale em regiões outrora prósperas de forma irremediável.

Quando o próprio processo de industrialização ou de urbanização resulta em dano ambiental, como a contaminação do ar ou de mananciais, mas ao mesmo tempo promove o desenvolvimento, a tendência é ignorar que o custo ambiental onerará a população por longos períodos, dezenas de anos. Um dia, a recuperação de passivos ambientais exigirá imensos gastos que passarão a onerar a população, que poderia ter aqueles recursos destinados a investimentos em outras áreas de maior retorno social ou econômico. O custo ambiental será sempre cobrado da população, seja sob a forma de perda de qualidade de vida, seja pelo aumento de gastos públicos ou privados.

Esses custos só se eliminam, ou se minimizam, se os planos e programas de ação contiverem a idéia de desenvolvimento sustentável, a noção de que o desenvolvimento perde sentido se for realizado às custas do esgotamento dos recursos naturais e em detrimento das gerações vindouras. Para se ter uma melhor idéia do que significa o uso exaustivo da natureza, pode-se lembrar que a cada ano são destruídos 20 milhões de hectares de florestas e perdidos 25 bilhões de toneladas de húmus, por causa da erosão, desertificação, salinização ou qualquer outro processo de uso degradante do solo. A salinização de solos atinge mais de 900 milhões de hectares em todo o mundo e a sua principal causa é a irrigação mal-feita: a utilização de água em excesso ou de água proveniente de reservatórios já salinizados. No nordeste brasileiro, mais de 4 milhões de hectares de áreas agricultáveis acham-se em processo de salinização. A terra torna-se estéril onde mais se precisa dela.

Um aspecto a observar é que o desenvolvimento sem sustentabilidade ainda é comum em países onde a questão ambiental não adquiriu a prioridade necessária. As principais razões disso são a pobreza e a falta de conhecimentos que compatibilizem o uso e a preservação dos recursos naturais, ou seja, a falta de informação e de educação ambiental. O conhecimento de técnicas preservacionistas deve ser transmitido à população. Deve-se ensinar, por exemplo, como fazer agricultura sem provocar erosão do solo, utilizar a madeira e ao mesmo tempo fazer o manejo florestal, ou empregar as reservas hídricas para consumo e irrigação sem esgotá-las. A falta desses cuidados acaba por acarretar mais danos aos países pobres que aos ricos, visto que os últimos detêm conhecimentos tecnológicos cuja aplicação favorece a preservação do meio ambiente.

A siderurgia sem cuidados ambientais pode ser um grande foco de poluição. No Brasil, para cada tonelada de aço produzida, podem ser gerados 444,2 quilos de resíduos, incluindo escórias de alto-forno, resíduos graxas, óleos, soluções ácidas, resíduos de carbono, além dos gases poluidores expelidos pelas chaminés. O investimento em controle da poluição nas modernas plantas siderúrgicas consome de 10% a 20% do investimento total. Outra fonte de poluição é a indústria cimenteira, que pode contaminar o ar desde a britagemda pedra calcária até o ensacamento do produto final. Pode-se afirmar que uma fábrica de cimento polui ao longo de todo o processo industrial. A fina poeira, repleta de óxidos químicos, produz doenças pulmonares graves, além da irritação dos olhos, ouvidos e fossas nasais. Perto de plantações, pode inviabilizar a agricultura. O controle da poluição deste tipo de indústria é simples e bastante difundido, uma vez que a colocação de filtros permite eliminar a contaminação do ar e reduzir as perdas na produção. A indústria petroquímica gera efluentes orgânicos e inorgânicos. Os orgânicos podem ser tratados da mesma maneira que os esgotos domésticos, utilizando-se processos biológicos; já os efluentes inorgânicos são tratados por processos físicos.

Se o principal objetivo de um projeto é a geração de empregos numa determinada região, pode-se, caso não haja cuidado na análise dos custos ambientais, ter esse projeto atuando em situação inversa. O dano ambiental que eventualmente venha a provocar pode eliminar atividades econômicas existentes. Por exemplo, um projeto industrial que prejudique ou elimine a pesca em um rio poderá comprometer a renda de um número de pessoas superior ao total de empregos gerados pela unidade industrial implantada. A responsabilidade por inverter essa situação é tanto dos órgãos públicos responsáveis pelo licenciamento das obras, quanto dos organismos de crédito que financiam os projetos. Os procedimentos modernos de elaboração e análise de projetos devem incluir obrigatoriamente a contabilização dos custos ambientais, que poderão até invalidar totalmente os índices de rentabilidade dos projetos ou exigir mudanças de localização.

Do ponto de vista ambiental, os projetos devem procurar utilizar tecnologias que reduzam ao máximo, se não puderem eliminar, os danos ao meio ambiente. Isto vale tanto para a definição da localização, quanto para o processo produtivo e para a destinação dos resíduos. As peculiaridades de cada projeto é que indicarão quais variáveis devem ser levadas em conta na análise de viabilidade. Do ponto de vista da localização, deverão ser analisados dados como: a direção dos ventos dominantes, o tipo de terreno, a proximidade de núcleos habitacionais, a compatibilidade da atividade a ser desenvolvida com a existência de moradores na proximidade, a necessidade de preservar algum ecossistema ou de recuperar áreas prejudicadas durante a construção.

O processo produtivo deve ter em conta a tecnologia empregada para verificar se é ela que permite o melhor uso das matérias-primas, ou se há alternativa que atinja o objetivo desejado com menor desperdício de insumos. Devem ser verificados os níveis de ruído, a emissão de gases e a possibilidade de produção de chuvas ácidas. A deposição dos resíduos, efluentes líquidos e rejeitas sólidos deve ser estudada com todo o cuidado. Até a temperatura dos efluentes deve ser verificada pois efluentes excessivamente aquecidos podem acarretar danos à vida na água e interromper alguma cadeia alimentar existente no manancial onde por ventura eles deságüem. Normalmente os processos de tratamento dos efluentes atendem bem às questões ambientais. Muitas vezes não são implantados apenas por falta de exigência dos responsáveis pelo licenciamento das obras.

Os resíduos sólidos, em sua grande maioria, podem ser depositados, reciclados ou tratados, sem trazer problemas ao meio ambiente. O descaso e imperícia dos órgãos que licenciam obras e autorizam seu funcionamento são os grandes responsáveis pela deposição inadequada desses resíduos.

A ansiedade em atrair indústrias para gerar empregos e aumentar a arrecadação de impostos suscita com freqüência verdadeira guerra entre os estados, cada um oferecendo incentivos maiores do que os outros, de modo a criar facilidades locais que estimulem a opção dos investidores pelo mais atraente do ponto de vista dos incentivos. Dentre estes incentivos os mais comuns são a doação de terrenos, redução ou isenção de impostos durante determinado período e escassas exigências ambientais. Nesses casos, a avaliação dos projetos é limitada, não detectando eventuais perdas ambientais. A avaliação ambiental dos projetos é mais complexa do que a avaliação técnico-econômica dos mesmos. A tradução,dos custos
e benefícios em termos monetários é insuficiente no caso dos parâmetros ambientais. Grande parte desses custos pode e deve ser avaliada monetariamente. Não há problema em traduzir em termos de custos o investimento a ser feito em filtros que eliminem partículas sólidas do ar ou com o tratamento dos rejeitos. Do mesmo modo não é difícil associar valores monetários a benefícios com a recuperação de uma área degradada. em função de um novo uso econômico que se lhe possa dar.

Conforme detalha o superintendente do Comitê Brasileiro de Gestão Ambiental da ABNT (CB 38) e presidente do Instituto Brasil Pnuma (Comitê Brasileiro do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), Haroldo Mattos de Lemos, no ano de 1987, a Comissão Mundial da ONU sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Unced), presidida por Gro Harlem Brundtland e Mansour Khalid, apresentou um documento chamado Our Common Future, mais conhecido por relatório Brundtland, que preconizava que desenvolvimento sustentável é desenvolvimento que Satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as futuras gerações satisfazerem suas próprias necessidades. O relatório não apresenta as críticas à sociedade industrial que caracterizaram os documentos anteriores; demanda crescimento tanto em países industrializados como em subdesenvolvidos, inclusive ligando a superação da pobreza nestes últimos ao crescimento contínuo dos primeiros. Assim, foi bem aceito pela comunidade internacional.

"As empresas, reagindo às exigências dos consumidores, foram responsáveis por uma significativa mudança de atitude em relação ao meio ambiente. O principal exemplo disso é a adesão voluntária de dezenas de milhares de empresas às normas internacionais de gestão ambiental. As normas ISO 14000 definem procedimentos universais que as empresas devem adotar para proteger o meio ambiente, por meio de sistemas que exigem transparência nas informações e certificação por auditores com credibilidade internacional, além de criar procedimentos para a rotulagem ambiental e definir a técnica para a elaboração da análise do ciclo de vida de produtos. Esta última é uma ferramenta essencial para a identificação dos impactos ambientais de um produto, desde a retirada da natureza das matérias-primas que virão a formá-lo, passando pelos transportes necessários, pelos processos de produção, pelo uso dos consumidores durante sua vida útil, até seu descarte final. Ao implantar sistemas de gestão ambiental ou adotar programas de produção mais limpa, as empresas passaram a fabricar o mesmo produto usando menos energia, menos água e matérias-primas, e a gerar menos resíduos para serem tratados. Passaram, portanto, a ganhar dinheiro com os cuidados ambientais. Por isso, meio ambiente e competitividade não são mais antagônicos como foram há 15 anos. Como conseqüência, houve uma grande mu-dança na atitude empresarial em relação ao meio ambiente, de inteiramente reativa, nos anos 70, a pró-ativa, a partir dos anos 90", explica Mattos.

Ainda, segundo ele, existe muito a ser realizado, particularmente em relação às micro e pequenas empresas. "O futuro exigirá ainda maior atenção das empresas em relação ao meio ambiente, pois as exigências de procedimentos de gestão e controle ambiental têm o potencial de se transformarem em barreiras técnicas relevantes ao comércio internacional. A Organização Mundial do Comércio (OMC) vem registrando vários acordos bilaterais de natureza ambiental e deverá incluir o tema entre suas inúmeras áreas de negociação sistemática."

Projetos

Qualquer projeto pode ser tratado para ser desenvolvido e ser operado em padrões sustentáveis ou auto-sustentáveis. Desde um projeto de cunho puramente ecológico, até um projeto industrial ou de extração mineral, por exemplo, onde a retirada e a transformação de recursos ambientais estão presentes. Quando se fala em desenvolvimento sustentável, o termo deve estar sempre associado a todas as fases da vida do empreendimento, ou seja, concepção, viabilidade, projeto, implantação, operação, produção, avaliação de resultados, ampliação, manutenção, aprimoramento e eventual desmobilização. Significa dizer que os processos de gestão ambiental precisam estar presentes e ativos durante toda a sua vida, desde a fase de concepção do empreendimento até o seu encerramento.

Além da economia e da busca de minimização de gastos, a proposta de autosustentabilidade está associada a uma permanente preocupação com a comunidade ao redor do empreendimento, considerado tanto no espaço, quanto no tempo. Ela é uma ordem de continuidade, de viver e deixar viver, de' otimizar o compartilhamento de recursos relativamente escassos com os demais usuários, considerando que esses recursos são muitas vezes sensíveis aos processos de transformação que lhes são impostos.

Para constituir um processo auto-sustentado, o empreendimento deve sofrer dois tratamentos gerenciais específicos. O primeiro, visando à sua conformidade legal e ao atendimento a padrões de desempenho aceitáveis, do ponto de vista ambiental. O segundo, referindo-se à introdução da competência ambiental na pauta dos atributos empresariais básicos de sucesso da organização. O tratamento relativo à conformidade legal e ao atendimento a padrões de desempenho estabelecidos, sejam padrões legais vigentes ou padrões auto-impostos, estão hoje totalmente formalizados, por meio de instrumentos, como:
- Estudos de impacto ambiental, para as fases de concepção, viabilidade, projeto, implantação e ampliação;
- Sistema de Gestão Ambiental (SGA), para as fases de implantação, operação, produção, avaliação de re sultados, ampliação, manutenção e aprimoramento;
- Auditorias ambientais, para as fases de implantação, operação, produção, avaliação de resultados, ampliação, manutenção, aprimoramento e eventual desmobilização.

Outros instrumentos podem ser utilizados, dependendo das condições ambientais da área de inserção do empreendimento, ou seja, da região em que ele está implantado (ou aonde venha a ser construído), e da região influenciada por seus efeitos ambientais físicos, biológicos e antrópicos. Por exemplo, poderá ser necessário desenvolver e implementar um projeto para recuperação de uma área degradada, ou efetuar um levantamento do passivo ambiental existente na região, ou, ainda, elaborar o zoneamento ambiental dessa região e implementar um plano de gestão ambiental para garantir a estabilidade do território. A introdução da competência ambiental na pauta dos atributos empresariais destinados à melhoria do desempenho de uma organização requer um tratamento funcional específico. Ou seja, demanda a criação, estruturação, instalação e operacionalização de uma nova função empresarial: a de gestão ambiental.

Boa parte dessa função é contemplada pelo SGA, de acordo com os dispositivos e procedimentos estabelecidos pelas normas da série ISO 14000. No entanto, o SGA é um dos instrumentos da função de gestão ambiental, pois existem outros componentes, não menos importantes. Além disso, os SGA são sistêmicos, isto é, são conjuntos de processos, procedimentos, métodos e técnicas que orientam, organizam e padronizam a ação para a gestão ambiental, mas não a realizam. Uma organização certificada pela ISO 14001, por exemplo, é similar a um jovem médico recém-formado, portando um diploma. Ambos possuem, em tese, segundo os seus respectivos códigos, os apetrechos necessários para praticar. Todavia, somente o tempo e a experiência sistemática e efetiva de suas competências poderá dizer se eles foram devidamente certificados (diplomados), se realmente possuem o domínio das competências necessárias e suficientes para ostentar e realizar seus títulos. Assim, além do seu SGA, a realização da função de gestão ambiental em uma organização produtiva demanda outros ingredientes. Os processos da gestão ambiental precisam estar presentes e ativos durante toda a vida da

Algumas organizações vêm trabalhando conforme esses princípios, como a Royal Canin do Brasil, empresa instalada em Descalvado (SP). Produzindo toneladas de rações para cães e gatos mensalmente, a fábrica adotou sistemas de produção modernos e econômicos, que não agridem a natureza nem a saúde da população local.

Segundo o gerente industrial, Alex Villafranca Fernandes, a empresa segue os mesmos conceitos utilizados pelas fábricas localizadas na França. "As grandes empresas que competem no mercado internacional adotam práticas carretas em prol do meio ambiente, segurança, saúde e qualidade de vida de funcionários e comunidade. A Royal Canin do Brasil também se preocupa com todos esses itens." Um outro exemplo citado por Fernandes é o processo de descarga de matéria-prima, um fator de grande importância para a empresa é o destino das águas usadas na refrigeração de produtos e na limpeza dos pisos da fábrica. Apesar do processo "seco", ou seja, do baixo volume de líquido utilizado, uma rede de captação foi construída dentro do terreno da fábrica. Como leva também resíduos de gordura e farelos, a água coletada é tratada. A temperatura, o pH e outras características do líquido são monitorados constantemente. Só depois ele é enviado para a rede de esgoto.

"Para evitar que a poeira dos cereais e farinhas se espalhem pelo ar, os farelos são descarregados por caminhões em um ambiente apropriado, especialmente projetado para esta função, chamado moega de recepção. O veículo estaciona na frente da porta do galpão, sobre uma rampa que será suspensão, e despeja a matéria-prima. As partículas de poeira ficam presas dentro do prédio devido à ação de um sistema de aspiração e filtração do ar. O ar vem de fora para dentro, por isso não há como a poeira se espalhar", explica Fernandes. Nesse ambiente totalmente fechado, os farelos caem diretamente sobre uma grade. A poeira gerada é sugada por um filtro e, em seguida, devolvida para a moega.O processo recomeça, evitando também desperdícios.

Na Cetrel, empresa baiana que atua no Pólo Petroquímico de Camaçari prestando serviços de engenharia ambiental, depois da implementação da ISO 14001, foram criados diversos indicadores de ecoeficiência e de desenvolvimento sustentável, com base nos requisitos das ISO 14031. O coordenador da qualidade, Francisco Alves Pereira Filho, destaca que foram definidas quatro categorias de indicadores: performance da gestão ambiental (oito indicadores); conformidade ambiental (seis), investimentos ambientais (três) ; e interação com a sociedade (sete). "Os esforços da Cetrel para a melhoria da sua performance ambiental incluiu a implementação de políticas e programas de gestão ambiental, além do desempenho financeiro e das relações com as comunidades vizinhas. Foram utilizados oito indicadores para avaliar este desempenho, no período de 1996 a 2002: índice de gestão ambiental (%); percentual de objetivos/metas concluídas no prazo (%); número de unidades operacionais contempladas com objetivos/metas ambientais; número de iniciativas de prevenção da poluição implementadas; porcentagem de empregados com exigências ambientais nos respectivos cargos e funções; força de trabalho atuante em programas especiais (%); porcentagem de empregados treinados em gestão ambiental; e número de sugestões per capita de melhorias propostas pelos empregados."

Alves ressalta que a empresa vem usando indicadores para avaliar o percentual de conformidade do seu Sistema de Gestão Ambiental: conformidade com legislação ambiental (%); número de não-conformidades por auditorias; auditorias planejadas versus concluídas no prazo (%) remoção de não-conformidades (%); número de não-conformidades de sistema; e número de emergências ambientais. "Igualmente,', foram estabelecidos três indicadores financeiros: investimentos em objetivos e metas ambientais em milhões de reais; percentagem de investimentos em objetivos, metas ambientais e receita operacional; e percentagem de redução de custos decorrentes de programas de prevenção de poluição e conservação de energia."


O superintendente do CB 38 acredita que existem três grandes desafios que necessitam ser superados. O primeiro deles é garantir a disponibilidade dos recursos naturais, que são transformados em bens e serviços necessários à vida cotidiana. "O alerta sobre a possibilidade do esgotamento de recursos naturais estratégicos, acompanhado por uma incontrolável mortandade da população, e que aconteceria por volta de 2050 foi apresentado pelo I Relatório do Clube de Roma Limites do Crescimento, publicado em 1971 e que foi o foco principal das discussões durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, em 1972. Em 1992, um grupo de cientistas liderados por Donella e Denis Meadows refez o modelo, usando computadores e programas mais desenvolvidos e dados bem mais confiáveis do mundo inteiro. Publicaram em outubro de 1992 o livro Beyond The Limits no qual demonstraram que pouca coisa tinha sido feita nos 20 anos pós-Estocolmo, e que a possibilidade do esgotamento dos recursos naturais estratégicos em meados do século XXI – e a conseqüente incontrolável mortandade da população pela escassez de bens e serviços – continuava a ameaçar a humanidade."

Conforme destaca, com relação à disponibilidade de recursos naturais, há a necessidade de se fazer uma distinção entre os naturais renováveis e os não-renováveis. "Quando se usa os renováveis de forma sustentável, respeita-se a velocidade de renovação destes recursos, com a ajuda artificial ou não. Por exemplo, plantar mais árvores do que cortar, ou pescar respeitando a velocidade de reprodução dos peixes. Quanto aos recursos não-renováveis essenciais, não se pode simplesmente deixar de utilizá-los. Mas, devem ser usados de tal forma a garantir que tecnologias alternativas sejam desenvolvidas, em tempo, para substituí-los quando começarem a ficar escassos. Por exemplo, antes de 45 anos, o limiar do esgotamento do petróleo, a humanidade deverá dispor de alternativas e infra-estrutura física instalada para substituir o petróleo e seus derivados."

Mattos alerta para o segundo desafio: não jogar sobre a biosfera resíduos e poluição em quantidades e velocidades superiores à capacidade de sua autodepuração. "O alerta para este problema foi dado pelo Pnuma durante a sessão especial de seu conselho de administração, realizada em Nairobi, Quênia, em 1982, para comemorar os dez anos da reunião de Estocolmo. Naquela ocasião, o Pnuma alertou que o aparecimento dos problemas ambientais globais, como o aquecimento da Terra, destruição da camada de ozônio etc., demonstrava que já estamos jogando sobre a biosfera mais resíduos e poluição do que ela é ca paz de absorver. De fato, as concentrações de vários tipos de resíduos e poluição estão crescendo no ar, nas águas e nos solos. Como exemplo, posso citar o aumento das concentrações de dióxido de carbono e óxidos de nitrogênio na atmosfera, provocado pela queima de combustíveis fósseis. No livro Beyond the Limits esta questão foi analisada e confirma que já foram ultrapassados, em várias áreas, os limites da biosfera para assimilar os resíduos e a poluição produzidos globalmente."

O terceiro desafio, apontado por Mattos, já não é mais de natureza física e sim social, estando relacionado com a redução da pobreza em nível mundial. "Em 1976, o Clube de Roma publicou o seu III Rela-tório denominado Para uma Nova Ordem Internacional, do qual participaram, pela primeira vez, cientistas das áreas sociais, coordenados pelo holandês Jan Tinbergen, que foi ganhador do Prêmio Nobel em Economia. Este estudo concluía que antes de atingirmos os limites físicos do planeta (a disponibilidade de recursos naturais e a capacidade da biosfera para absorver resíduos e poluição) aconteceriam graves convulsões sociais provocadas pela grande desigualdade entre os países industrializados e os pobres". Naquela época, a relação entre o PIB médio dos países industrializados e dos países pobres era de 13 para 1 e estava crescendo. Atualmente, esta diferença ultrapassou 20 para 1 e as conseqüências estão ocorrendo de maneira inexorável: migrações clandestinas dos pobres para os ricos, aumento da violência urbana, terrorismo etc. Na verdade, no relatório eram propostas várias teses que foram implantadas de maneira bem diferente, como, por exemplo, novas facilidades para o comércio de matérias-primas dos países em desenvolvimento. O que houve de lá para cá, foram novas barreiras e subsídios para impedir este comércio."

Mattos de Lemos analisa, ainda, as atividades que a humanidade está desenvolvendo ou precisa desenvolver para verificar se está na direção certa do desenvolvimento sustentável. Aponta para a necessidade de haver uma estabilização da população mundial, para que se possa garantir a disponibilidade de recursos naturais, pois quanto mais habitantes no mundo, maior será o consumo de recursos; para que não se jogue sobre a biosfera mais resíduos e poluição do que ela pode absorver, já que para mais habitantes, maior a geração de resíduos. "Além disso, é fundamental haver uma melhoria da educação, para que as pessoas possam entender que a responsabilidade para atingir o desenvolvimento sustentável é de todos nós. O somatório de pequenas atitudes individuais, como reduzir o consumo: de supérfluos, não desperdiçar água potável, não fazer a barba com a torneira aberta e não jogar lixo nos rios, é importante para o esforço global. Somente sendo educadas, as pessoas vão entender e aceitar medidas de longo prazo amargas, como a cobrança da água de todos os usuários em locais onde ela está ficando escassa, como forma de valorizar o bem e evitar desperdícios. Há, ainda, que se produzir de forma mais eficiente e mais limpa, a fim de se economizar recursos naturais, devendo-se reduzir a geração de resíduos, aumentar a reciclagem, usar substâncias mais biodegradáveis e menos tóxicas e produzir bens e serviços essenciais mais baratos."

O superintendente do CB 38 examina um ou outro tema: consumo sustentável, pois, conforme explica, 25% da população mundial, que corresponde à totalidade dos habitantes dos países industrializados e uma parte da elite dos países em desenvolvimento, consome cerca de 75% de toda a energia primária produzida no mundo, extrai 75% dos minerais da crosta terrestre e consome mais da metade dos alimentos produzidos. De acordo com ele, para se atingir o desenvolvimento sustentável seria necessário reduzir esta disparidade, começando pela redução dos desperdícios e do consumo de supérfluos e pelo aumento da durabilidade dos produtos. "Reduzir a pobreza parece significar um aumento no consumo dos recursos naturais e na geração de resíduos e, portanto, estância contra os dois primeiros desafios apontados anteriormente", conclui Mattos. "Mas, no relatório do Clube de Roma, está bem claro na conclusão de que antes de atingirmos os limites físicos do planeta aconteceriam graves convulsões sociais provocadas pela enorme desigualdade entre ricos e pobres. A redução ou eliminação da pobreza é uma ação indispensável para a sustentabilidade. O aumento no consumo poderia ser compensado pela melhoria da eficiência dos processos de produção e/ou pela redução dos níveis de consumo dos países mais ricos. Dessa forma, a redução da pobreza no mundo vai exigir: facilidade do comércio de produtos acabados, em vez de matérias-primas, dos países em desenvolvimento, principal-mente com a redução dos subsídios agrícolas na Europa e nos Estados Unidos; a diminuição dos investimentos não-produtivos, principalmente os gastos com armamentos; o aumento dos investimentos em educação, habitação e saneamento básico; e o aumento da ajuda oficial ao desenvolvimento dos países pobres para 0,7% do PIB dos países ricos."

No fundo, as atividades humanas são as fontes de maior poluição do planeta e somente o desenvolvimento sustentável terá a capacidade de reverter esse quadro de devastação mundial. O futuro depende do controle destes impactos ambientais e da emissão de gases, no conservacionismo, no uso de fontes alternativas de energia não-poluentes, na reciclagem, no reflorestamento e, principalmente, na conscientização de toda a população mundial de que a biosfera atual, que até agora foi o único hábitat dos seres vivos conhecidos, é também a única que necessita de garantias para que continue habitável.

 

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