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Tecnologias Limpas

Fontes alternativas de energia

Eugênio Melloni

Colaborador dos cadernos especiais do Valor Econômico, da Revista Mundo Corporativo, editada pela Deloitte, da revista Conselhos, editada pela Fecomercio, e de especiais da revista Veja

As fontes alternativas não são mais uma utopia no Brasil. A geração eólica (a partir da força dos ventos), a partir da biomassa (principalmente bagaço da cana-de-açúcar) e as pequenas centrais hidrelétrica (PCHs) vêm ganhando musculatura nos últimos anos e já se apresentam com escala suficiente para contribuir com o esforço de ampliação e diversificação do parque gerador brasileiro.

Considerada até a virada do século uma fonte de energia para o futuro, a geração eólica avança a passos firmes no país. Dos 6,6 megawatts (MW) efetivados em 2004, quando foram viabilizados os primeiros projetos, as usinas eólicas chegaram ao final de 2010 com uma capacidade total de geração que beira a 1 gigawatt (GW). E devem seguir em marcha acelerada: os projetos em andamento apontam para a efetivação, até 2013, de novas usinas que somam cerca de 3,7 GW.
Deixadas de lado ao longo da segunda metade do século 20, quando o Brasil implantou as grandes usinas hidrelétricas que predominam no setor elétrico, as PCHs se transformaram em objeto de disputa ao longo da última década. Com um impacto ambiental e social muito inferior ao das hidrelétricas, as PCHs – como são chamadas as usinas com 30 MW ou menos – já constituem a terceira maior fonte de energia elétrica no Brasil, respondendo por 3,14% de uma potência instalada total de 114,2 gigawatts (GW), de acordo com os dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a agência reguladora do setor elétrico.
A geração a partir da biomassa segue perseguindo uma estatística que ilustra o seu potencial: a de que os canaviais brasileiros abrigam uma capacidade de produção de bioeletricidade equivalente à da usina hidrelétrica de Itaipu, que conta com cerca de 14 GW de potência instalada. Desde os anos 90, no entanto, a geração de energia a partir da queima do bagaço padece com a falta de convergência entre a rentabilidade desejada pelos empresários do setor sucroalcooleiro e a política adotada pelo governo federal, que tem na busca pela modicidade tarifária um de seus pilares. Outro problema que se mantém como um obstáculo ainda difícil de suplantar é a fragilidade dos sistemas de distribuição em algumas regiões do país, que não comportam a eletricidade produzida pelas usinas. Mesmo com esses percalços, as usinas movidas a biomassa que iniciaram operação desde 2002 já oferecem ao sistema elétrico uma capacidade conjunta de 4,7 GW.
Com esse avanço, as fontes alternativas de energia elétrica vêm desempenhando papel importante na ampliação e diversificação da matriz energética brasileira. Contribuem, portanto, para oferecer a energia necessária para garantir o processo de crescimento econômico do país. E, ao mesmo tempo, têm participação ativa na redução da extremada dependência que o sistema elétrico mantém em relação às usinas hidrelétricas, que respondem por quase 70% da produção de eletricidade no país. O racionamento de energia, que completa neste ano dez anos, explica bem os riscos que essa dependência implica.
Mas tão importante quanto o ganho de escala conquistado pelas fontes alternativas é a mudança de paradigmas em relação ao papel que elas desempenham. Não se vê mais no setor elétrico brasileiro fontes, como a geração eólica, como uma cota de energia limpa obrigatória – uma espécie de reserva verde, como a que é exigida nas propriedades rurais. As fontes alternativas, pelo contrário, vêm encontrando espaços no mix de preços de energia e se integrando, naturalmente, nos diferentes formatos de viabilização de projetos, seja como reserva de segurança, seja para operar no horário de pico. Concorre para isso um mercado pungente, cuja demanda tem se mantido aquecida por uma economia vibrante, em processo de forte expansão. O desenvolvimento tecnológico tem dado sua contribuição, proporcionando uma redução do custo de geração de energia por essas fontes, tornando-as mais competitivas em relação às chamadas fontes convencionais. Mas nada disso teria surtido efeito não fosse a conscientização do governo, dos empresários e de toda a sociedade brasileira em relação aos fatores que vêm determinando as mudanças climáticas.
Esse avanço não se deu, entretanto, sem tropeços. Nos últimos anos, as fontes alternativas chegaram a perder significativo terreno para a extremamente poluente geração térmica a partir de óleo diesel e óleo combustível. Mais recentemente, o boom da energia eólica se deu em detrimento de projetos de geração a partir da biomassa, estabelecendo-se, de certa forma, uma estranha competição entre as duas fontes alternativas. Há também a resolver os gargalos da distribuição que impedem que se aproveite a capilaridade da geração à base de biomassa para se reforçar os sistemas nas regiões mais distantes dos grandes centros.
É preciso, também, que as autoridades estejam atentas aos movimentos que ocorrem em outros países no que concerne à introdução e desenvolvimento de novas fontes de energia. Nos Estados Unidos, por exemplo, a geração solar concentrada, que amplia a escala de produção de energia a partir do aproveitamento da luz do sol já conta com projetos de grande porte viabilizados. No Brasil, já há uma movimentação de alguns agentes com o objetivo de trazer essa tecnologia para a região Nordeste, que, desde o esgotamento do potencial hidráulico do rio São Francisco, carece de novos projetos de geração. Ainda falta, contudo, uma regulamentação que permita a sua implantação.
Torna-se necessário, portanto, que se eliminem rapidamente os obstáculos para que as fontes alternativas continuem a ganhar espaços. Todos ganham com a matriz elétrica mais limpa.

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