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Gestão

A cereja sobre o chantilly

Maria Suely Moreira

Especialista em Sistema de Gestão Ambiental e pós-graduada em gestão ambiental pelo Ietec

Antes de implantar a coleta seletiva em uma empresa, seria interessante que o assunto fosse analisado de maneira crítica, em lugar de simplesmente adotar o padrão tradicional, sem maiores questionamentos. Coleta seletiva não faz sentido onde ainda não exista um gerenciamento de resíduos estruturado. É como fazer o jardim antes de construir a casa. Julga-se, equivocadamente, que a coleta seletiva seja uma exigência para se obter o certificado ISO 14001. Muito esforço é dedicado a essa atividade trabalhosa e, na maioria das vezes, inócua.

É comum que o programa seja implantado sem o devido planejamento, sem definição de locais adequados para segregação e armazenagem de cada tipo de resíduo, nem mesmo de sua destinação. Argumenta-se que o mais importante é a educação ambiental dos empregados. Entretanto, o que acontece nesses casos é uma total desmotivação, tão logo todos descubram que os resíduos cuidadosamente separados em seus recipientes específicos acabam sendo agrupados em um mesmo saco plástico e destinados ao aterro municipal.

A empresa que comete esse erro subestima tanto a capacidade de percepção do empregado quanto o esforço e o dispêndio na implantação de uma coleta seletiva. Mesmo se bem implantado o programa, o eventual ganho econômico, via de regra, não é suficiente para cobrir os custos. Portanto, a motivação principal da empresa para implantar a coleta seletiva deve ser a contribuição efetiva para reduzir, por meio de reciclagem e/ou reaproveitamento, a sobrecarga de resíduos em aterros municipais, bem como o desperdício de matérias-primas e de energia.

É preciso esclarecer o que é exatamente coleta seletiva, porque até mesmo este conceito não parece ser tão evidente assim. Dentre os diversos resíduos de uma empresa (industriais, laboratoriais, de manutenção etc.), existe um tipo de resíduo denominado lixo comum. Trata-se de resíduos que não oferecem riscos de contaminação para o meio ambiente e muitos deles são recicláveis ou reaproveitáveis. Quando se fala em coleta seletiva, o seu foco é unicamente esse tipo de resíduo: o lixo comum. Por esta razão, considero a coleta seletiva como um refinamento do gerenciamento de resíduos. É a cereja sobre o chantilly do merengue de chocolate.

Em outras palavras, somente depois que todos os resíduos da empresa fossem devidamente caracterizados, classificados conforme a norma ABNT 10004, controlados quanto à sua geração, transporte interno e armazenagem temporária, além de terem sua destinação correta definida e seu manuseio, acondicionamento e transporte estabelecidos dentro dos requisitos pertinentes, é que a empresa deveria pensar em coleta seletiva do lixo comum. Se essa lógica for seguida, certamente a empresa terá mais discernimento para implantar uma coleta verdadeiramente seletiva.

O que seria a coleta verdadeiramente seletiva?
Sabe-se que a grande maioria dos resíduos coletados nos inúmeros conjuntos de recipientes distribuídos por toda a empresa não será aproveitada. Esta é a mais pura verdade na grande maioria dos programas de coleta seletiva. No entanto, para obter qualquer resultado medíocre, despende-se muito tempo, esforço e dinheiro. Se for que os resultados são monitorados. No atual contexto de terceirização intensa e alta rotatividade, é muito mais difícil alcançar sucesso na conscientização de todos. Quem já implantou o Programa 5S tem idéia do quanto é difícil educar as pessoas para simplesmente jogar o lixo na cesta de lixo. E jogar o lixo na lixeira correta é um passo muito avançado, mesmo porque o detalhamento da coleta seletiva não é tão simples quanto pode parecer à primeira vista.

Para uma coleta seletiva, digamos, mais focada, o que se deve fazer, em primeiro lugar, é uma análise criteriosa dos dados de geração de lixo comum, a fim de identificar aqueles que são gerados em maior volume. Em seguida deve-se fazer uma análise de Pareto, a fim de identificar os poucos tipos de resíduos responsáveis por 80% do total. Para citar exemplos mais comuns, suponhamos que os resíduos de maior volume identificados fossem o papel de escritório, papelão de embalagens e vidraria. Estes seriam os focos da coleta seletiva - e nada mais.

A segunda etapa seria identificar as fontes de maior geração desses resíduos, cabendo aqui também uma análise de Pareto. Desta forma, a empresa poderia atuar nos principais itens e nas suas principais fontes de geração. Não há por que espalhar coletores seletivos pela empresa toda, indiscriminadamente.

Os recipientes para coleta dos resíduos selecionados devem ser colocados nos locais de maior geração e identificados com o próprio nome do resíduo. Exemplo: papel de escritório, papelão de embalagens, vidros, copos plásticos etc. O resto pode ser coletado em recipientes identificados simplesmente como LIXO COMUM.

Se um resíduo é gerado em grandes volumes, mas não se encontra um reciclador ou quem se interesse por seu reaproveitamento, não há por que coletá-lo seletivamente. A não ser que a identificação de interessados seja apenas uma questão de tempo, com grande chance de sucesso. Caso contrário, coletor comum nele!

Para que o programa se mantenha, é interessante adotar estratégias para a motivação dos empregados. Uma delas é divulgar os resultados continuadamente e utilizar o dinheiro obtido com a comercialização dos resíduos para:
• adquirir brindes e sorteá-los periodicamente entre os empregados e parceiros;
•realizar eventos de confraternização;
•doar cestas básicas, material didático e brinquedos a comunidades carentes.

Podemos identificar, portanto, os seguintes itens de planejamento para a implantação de uma coleta verdadeiramente seletiva:
1. Designação de um coordenador do programa
2. Formação de uma equipe
3. Coleta de dados sobre geração de lixo comum
4. Elaboração de gráficos de Pareto (sobre geração de lixo e fontes de geração)
5. Seleção dos principais tipos de lixo comum aproveitáveis
6. Seleção das principais fontes de geração de cada tipo de resíduo
7. Definição da destinação a ser dada para cada tipo
8. Definição dos coletores (tipo, tamanho, cor, identificação)
9. Definição dos locais estratégicos para os coletores
10. Definição de requisitos para qualificação de compradores dos resíduos
11. Definição e adequação de locais de armazenagem temporária
12. Definição da periodicidade de coleta nos locais de geração
13. Definição do acondicionamento, manuseio e movimentação interna
14. Definição de controles de entrada e saída dos resíduos
15. Definição de requisitos para o transporte externo
16. Definição de periodicidade de coleta pelos terceiros qualificados
17. Definição da forma de monitoramento das informações de geração e destinação
18. Definição dos meios de divulgação periódica de resultados
19. Definição de responsabilidades.
20. Definição de estratégias de motivação para manutenção do programa.

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