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Gestão

Novo clima para os negócios

Sérgio Teixeira Jr.
Portal Revista Exame - 14/12/2006


Executivos vivem cercados de números. Eles podem estar no mostrador do relógio, avisando o atraso para uma reunião importante, ou no calendário, sinalizando um prazo iminente. Também estão nas planilhas eletrônicas, apontando metas de faturamento, e no índice das bolsas, acompanhando o sobe-e-desce das ações. E existe um número novo, cujas implicações ainda não são muito claras, que precisa ser observado com cuidado especial nas empresas de todo o mundo: o do termômetro. O planeta está esquentando.

As seguradoras perderam mais dinheiro com o furacão Katrina do que com os atentados de 11 de setembro de 2001. A área afetada por incêndios florestais dobrou e a devastação triplicou durante os anos 90 em relação às três décadas anteriores. Um aumento de temperatura de 2 graus centígrados, algo considerado muito provável no atual caminhar das coisas, pode provocar falta de água generalizada e afetar um sexto da população do planeta.

O preço do aquecimento

A mudança no clima do planeta representará altos custos para cidadãos, governos e empresas — mas também criará novas e lucrativas oportunidades de negócios. Uma elevação de 1 grau centígrado na temperatura do planeta pode custar 300 bilhões de dólares por ano à economia mundial, totalizando 2 trilhões de dólares em 2050. O consumo per capita pode cair até 20% devido ao aquecimento global. O custo de reduzir as emissões pode atingir 1% da economia mundial na metade do século... mas as recompensas também.

O mercado de energia limpa vai girar 500 bilhões de dólares em 2050
Os fundos de tecnologias de energia limpa vão colocar 100 bilhões de dólares em projetos inovadores dentro de três anos.

A emissão de gases que causam o efeito estufa, em especial o dióxido de carbono, continua crescendo, apesar do Protocolo de Kyoto e dos limites impostos aos países ricos. China e Índia continuam queimando carvão para empurrar sua economia adiante. O Brasil vive a situação ambígua de ser o país das hidrelétricas e do etanol, mas também de ser visto como o vilão do desmatamento da Amazônia.

A conta não foi apresentada a essas três potências emergentes, embora ninguém duvide de que seja somente uma questão de tempo. O clima do planeta Terra nunca registrou alterações tão dramáticas quanto agora. A divulgação em série de pesquisas sobre o aquecimento global, o surgimento de profetas ambientais, como o ex-vice-presidente americano Al Gore, a superexposição do assunto na mídia global -- tudo faz com que surja um clima pré-apocalíptico.

Pode haver muito de exagero nisso tudo, embora muitos cientistas garantam que não. Pode haver uma boa dose de marketing e de injustiça em relação aos países em desenvolvimento, pressionados por nações ricas que já deram sua cota de contribuição à devastação da natureza em nome do próprio progresso. Mas o fato é que o tema do aquecimento global ganhou uma dimensão que não pode ser ignorada. Transformou-se numa espécie de imposição do mercado. O problema só preocupava cientistas, mas agora é um dos assuntos mais importantes da política, da economia e dos negócios. E ele pode ser colocado em números.

O economista inglês Nicholas Stern publicou no final de outubro um estudo encomendado pelo governo britânico sobre o impacto do aquecimento global na economia. O relatório do ex-economista-chefe do Banco Mundial conclui que ações imediatas para reduzir a emissão de gases de efeito estufa podem custar 1% de toda a riqueza produzida no mundo anualmente, algo como 600 bilhões de dólares. P

Parece muito? Ignorar o problema custaria, segundo Stern, 20 vezes mais caro. Faz parte da natureza humana descontar o valor do futuro no presente. Mencionar uma alteração de 5 graus centígrados daqui a 100 anos é uma declaração quase esotérica. Pois essa foi a elevação da temperatura na Terra desde a última Era Glacial, 10 000 anos atrás. Se essa previsão -- pessimista para alguns cientistas, plausível para outros -- estiver correta, cidades como Nova York, Londres e Tóquio estarão debaixo d'água, mais da metade das espécies animais desaparecerá, a produção de alimentos estará seriamente ameaçada e o mundo verá o maior deslocamento de populações de todos os tempos. Para estabilizar os níveis de CO2 na atmosfera a níveis seguros amanhã, o trabalho precisaria começar hoje.

Cada vez mais consumidores, políticos e investidores acreditam que essa é uma tarefa que também cabe às empresas -- todas elas, de frigoríficos a fabricantes de chips de computador, de bancos a siderúrgicas, de varejistas a companhias aéreas. Dependendo da forma como vai operar daqui para a frente, o mundo dos negócios poderia, na visão de um número cada vez maior de pessoas, salvar o planeta. A boa notícia é que a preocupação com o ambiente não significa necessariamente pisar no freio da economia. Pelo contrário.

Somente o mercado de novas energias vai movimentar meio trilhão de dólares anuais na metade do século. De olho nesse retorno futuro, os maiores fundos de investimentos do mundo estão plantando agora. Os aportes de capital em energias limpas passaram de 30 bilhões de dólares em 2004 para 63 bilhões neste ano. Estima-se que o volume deve ultrapassar os 100 bilhões de dólares anuais a partir de 2010.

Parte importante desses recursos deve vir para o Brasil, seja em incentivos à produção de biocombustíveis, seja em investimentos em projetos de redução de emissões. No mercado mundial de créditos de carbono -- espécie de compra do direito de poluir em troca de investimentos em projetos de redução de emissão em economias em desenvolvimento --, o país ocupa o segundo lugar nas estatísticas mais recentes divulgadas pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, da ONU.

"As empresas que se preocuparem agora com as mudanças climáticas serão líderes no futuro", diz Philippe Lisbona, diretor de um novo fundo ambiental criado pelo banco Stratus. Ou, como escreve o ambientalista britânico Jonathon Porritt em seu livro "Capitalismo -- Porque o mundo importa", sem publicação no Brasil: "A preservação do planeta pode ser a maior oportunidade de negócios deste século".
A infinita capacidade de renovação do capitalismo é, no fim das contas, a chave para solucionar o problema da mudança no clima, diz Porritt, ex-líder do Partido Verde inglês no início dos anos 80 e hoje assessor de empresas como a anglo-holandesa Unilever.

Os sinais estão por toda parte. A GE vai investir 1,5 bilhão de dólares para aumentar a eficiência de suas turbinas de avião, locomotivas, lavadoras de roupa e lâmpadas. A montadora japonesa Toyota saiu na frente dos concorrentes e ganhou uma importante fatia de mercado com o lançamento do carro híbrido Prius, em 2001. A americana HP, maior fabricante de PC do mundo, criou um sistema de sensores de temperatura que promete gerar economias de até 1 milhão de dólares anuais para grandes clientes corporativos.

Hoje, metade da energia necessária para manter um grande data center em funcionamento é gasta com ar-condicionado. Ou então considere o efeito Wal-Mart. O maior varejista do mundo calcula que, se cada cliente que visita uma de suas mais de 2 000 lojas semanalmente comprasse uma pequena lâmpada fluorescente, os consumidores economizariam 3 bilhões de dólares nas contas de energia e evitariam a queima de 50 bilhões de toneladas de carvão. A companhia quer começar dando o exemplo. O executivo-chefe H. Lee Scott determinou uma redução de 30% na energia consumida pela cadeia, além de aumentar a eficiência no uso de combustíveis de sua frota de caminhões. O Wal-Mart, com receitas anuais de mais de 300 bilhões de dólares, faz sua influência reverberar ao lon go de toda a sua enorme cadeia de suprimentos. Os fornecedores podem até não concordar com as teorias e as práticas verdes da rede -- mas terão de arcar com as conseqüências comerciais. O aquecimento aparece como imposição do mercado.

Verdes, sim.
Algumas das maiores lideranças empresariais do mundo se comprometeram com o combate às mudanças climáticas:

Jeffrey Immelt, GE: De tintas e lavadoras de roupa a turbinas de avião e locomotivas, quer duplicar a venda de equipamentos que não agridam o ambiente. A meta é dobrar o faturamento “verde”para 20 bilhões de dólares até o fim da década;

Rupert Murdoch News Corp.: Anunciou que todas as empresas de seu império de mídia terão de ser neutras — ou seja, deverão investir em reflorestamento e energia eólica para contrabalançar a emissão de CO2 de seus negócios;

H. Lee Scott, Wal-Mart: Determinou metas de economia de energia em suas 6 600 lojas e aumento na eficiência de combustíveis na frota de caminhões, além de investir 500 milhões de dólares em projetos de sustentabilidade ambiental;

Richard Branson, Virgin: Prometeu doar o lucro da Virgin Trains e da Virgin Air, seus negócios ferroviários e aéreos, pelos próximos dez anos a uma nova empresa do grupo que pesquisa biocombustíveis. A quantia deve chegar a 3 bilhões de dólares.

As cores esverdeadas afastam os olhos dos consumidores de questões embaraçosas para o Wal-Mart, como a destruição do pequeno comércio e os contratos de trabalho que nem sequer oferecem plano de saúde. De um ano para cá, a palavra sustentabilidade ultrapassou a governança corporativa como o chavão preferido dos principais executivos do mundo. Por trás de algumas iniciativas anunciadas com pompa, há muito marketing mal disfarçado. É o caso de disparates como a empresa inglesa BAE Systems, que anunciou a intenção de produzir armas -- sim, armas -- ecologicamente corretas.

Mas em muitos casos vestir verde não é seguir a moda -- é questão de sobrevivência. A produção de cimento é uma das atividades humanas que mais contribuem para o efeito estufa. Um estudo recente do banco de investimentos alemão Dresdner Kleinwort Wasserstein desaconselhou investimentos em cimenteiras e projetou quedas de até 13% nos preços das ações de oito companhias européias. Descortina-se, portanto, um enorme desafio também para grandes empresas brasileiras, como Votorantim e Camargo Corrêa.

Pelos acordos internacionais, hoje elas não têm nenhuma obrigação de reduzir emissões. Mas não se pode esquecer de que essas e outras corporações brasileiras vivem um processo de internacionalização, dependem cada vez mais da boa vontade de investidores estrangeiros e precisam construir uma imagem perante consumidores europeus, japoneses e americanos cada vez mais preocupados com as questões ambientais.

Geradoras de energia cuja base é o carvão estão em situação ainda mais grave. O banco suíço UBS calcula as desvalorizações em até 70%. É o impacto da teoria do aquecimento no mercado acionário e nas decisões de investimento. A matriz energética dos negócios, que antes só era considerada um custo, hoje faz parte de qualquer cálculo de riscos financeiros. Na Europa, os limites de emissões impostos pelos governos foram relaxados neste ano e devem ser revistos para cima em 2007. Estão em estudo propostas que podem criar uma taxa de até 80 dólares em viagens de ida e volta dentro do continente. Se aprovado, esse "imposto da aviação" pode colocar em jogo o modelo de companhias de baixo custo, como RyanAir e EasyJet, e ter um enorme impacto sobre a indústria do turismo.

Os vilões do aquecimento

Carros e indústrias pesadas contribuem para o aumento da temperatura no planeta, mas não são os únicos responsáveis.

Os maiores emissores de CO2(1):

Eletricidade 24,5%
Desmatamento 18,2%
Indústria 13,8%
Agricultura 13,5%
Transportes 13,5%
Lixo 3,6%
Outros 12,9%

Por enquanto, não se imaginam por aqui restrições tão pesadas ou a aberração de mais impostos sobre a atividade econômica. O país é um dos beneficiários do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, estabelecido pela ONU para que o mundo emergente não repita os mesmos erros de 150 anos de industrialização. Ao lado de nações como China e Índia, o Brasil não tem metas de emissão de carbono e se beneficia do sistema de créditos. Mas a primeira fase do Protocolo de Kyoto tem data para acabar: 2012. Já começaram as negociações para incluir os três países na lista dos devedores. Indianos e chineses terão de controlar a sede por carvão, principal fonte de geração de energia elétrica nos dois países. Já os brasileiros terão de responder pela devastação de florestas. Queimadas e desmatamentos são mais danosos que o combustível queimado por todos os carros, ônibus, caminhões e aviões do planeta somados. A briga diplomática promete.

Os representantes do governo brasileiro insistem que esses cálculos são literalmente uma cortina de fumaça. "A raiz do problema está nos países desenvolvidos, que agora precisam alterar seus padrões de produção e de consumo", diz Luis Fernandes, secretário executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia. "Eles não querem arcar com as responsabilidades." Mas, até mesmo nos Estados Unidos, país que não aderiu a Kyoto, vários estados estão instituindo restrições à emissão de dióxido de carbono e incentivando fontes limpas. Na Califórnia, a meta é que, no final da década, 20% da energia venha de painéis solares e fazendas eólicas.

Apesar da assertividade dos que vivem em Brasília, existe a possibilidade real de que em cinco anos setores inteiros da economia brasileira sejam submetidos a um novo tipo de regulamentação. "Transformar métodos de produção custa caro e afeta a competitividade de muitas empresas e setores", diz Francesca Maria Cerchia, da Econergy, empresa de consultoria e comercialização de créditos de carbono. Há duas maneiras de lidar com esse cenário. A primeira é esperar para ver. A outra é começar a se mexer imediatamente.

A siderúrgica capixaba CST, do grupo Arcelor Mittal, montou um sistema para queimar o gás resultante da produção de aço e, com ele, gerar energia elétrica. Com o projeto, a CST vai conquistar a auto-suficiência em energia, um resultado nada desprezível diante dos apagões previstos para esta década. "Queremos continuar aqui pelos próximos 50, 100 anos", diz Luiz Antonio Rossi, responsável pela área ambiental da empresa. Outro resultado do projeto da CST é o recebimento de créditos equivalentes a 400 000 toneladas métricas de CO2. Esses papéis podem ter dois fins. A primeira opção é repassá-los à matriz, que pode usá-los para ter o direito de poluir na Europa. Ou então ser vendidos no mercado.

Aí surge um problema. Se o objetivo fosse obter lucros com a venda dos créditos, a CST e outras dezenas de companhias brasileiras que receberam créditos estariam com um mico nas mãos. A tonelada de CO2 equivalente, unidade em que se contam os créditos, está despencando nos mercados europeus, os maiores compradores do mundo. Chegou a valer 30 euros em abril deste ano, mas no início de dezembro era negociada por meros 7,30 euros. A origem do problema é política.

Em meados do ano, descobriu-se que os governos europeus foram generosos ao alocar as metas de emissão para grandes conglomerados poluidores. A demanda por créditos sumiu e, é claro, os preços desabaram. Tudo indica que a situação vá mudar no ano que vem, quando novos limites serão anunciados. A Sadia, que colocou 250 milhões de reais (60 milhões do BNDES) num projeto para queimar o metano dos dejetos de porcos, espera acumular 12 milhões de toneladas de créditos de carbono. No preço atual, o valor mal cobriria o capital investido. Gilberto Meirelles Xandó, diretor comercial da Sadia, diz que a idéia não é obter lucros, mas reinvestir o dinheiro na auto-suficiência dos suinocultores.

Ou, como diz Wladimir Abreu, advogado do escritório Tozzini, Freire, Teixeira e Silva: "Os créditos não pagam os projetos. Eles são apenas a cereja do sundae". Cereja ou sorvete, o fato é que a depressão nesse novíssimo mercado tem impacto real numa área de empreendedorismo nascente no país. Marcelo Junqueira, ex-operador do mercado financeiro, fundou a Quantum Consultoria e Participações. Seu modelo de negócios inicial era prestar assessoria técnica e financeira aos projetos de redução de emissões em troca de uma participação nos créditos.

"Mas, com o carbono nesse preço, fica mais difícil convencer um empresário a encarar o 'risco Bolívia' e trocar sua caldeira a óleo por gás natural, por exemplo", diz Junqueira. Apesar do crash, Marco Antônio Fujihara, pioneiro do movimento ambientalista, ex-diretor da PricewaterhouseCoopers e fundador da consultoria Totum, mantém o otimismo. Embora os indianos tenham mais projetos e os chineses muito mais potencial de reduções, o Brasil ainda está na dianteira da credibilidade.

A moeda verde

O mercado de créditos de carbono cresce de maneira exponencial, e o Brasil está entre os líderes mundiais:

Índia 29,3%
Brasil 18,7%
México 14,8%
China 7,7%
Outros 29,5%
Distribuição dos créditos(1)
China 43,9%
Brasil 14,6%
Índia 11,4%
Coréia do Sul 10,6%
México 4,6%
Outros 14,9%
Fonte: Comissão da ONU para Mudança do Clima

A ciência tem os argumentos, e os economistas já fizeram os cálculos. Se o aquecimento da Terra é um fato hoje não questionado pelos especialistas, ninguém sabe que conseqüências reais isso trará ao planeta, às pessoas e aos negócios. Tentar prever o futuro é perda de tempo. Ignorar o presente, um risco alto. Se não por crença, mas por puro pragmatismo capitalista, é importante que as empresas brasileiras coloquem o tema do aquecimento nas agendas de preocupações. Salvar o planeta é uma meta grande demais para cada empresa individualmente. Salvar a própria imagem, porém, é um objetivo possível.

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