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Médicos Cubanos e Engenheiros Alemães

Ronaldo Gusmão

Presidente do IETEC.

O Brasil vive hoje um momento delicado em relação à classe médica e ao não atendimento das necessidades básicas de saúde da população mais necessitada: estamos importando profissionais de outros países por negligência ou falta de planejamento dos governos passados, por falta de recursos ou má administração de governos municipais. Na engenharia, a situação poderá ser pior. Qualquer médico atende às necessidades básicas do ser humano, mas na engenharia isso não acontece. A formação de um engenheiro eletricista é completamente diferente de um engenheiro ambiental, nuclear, etc. Hoje em dia, existem mais de 30 modalidades básicas de engenharia, e outras tantas surgirão nos próximos anos.

Em 2011, o número de matrículas na engenharia superou as de direito: foram 227 mil em engenharia e 198 mil em direito, mas ainda distante da quantidade de matrículas em administração: 508 mil. O crescimento é motivo para comemoração, porém, com algumas preocupações: qual o nível de qualidade das escolas, dos estudantes, e em quais modalidades da engenharia eles irão se formar? A distribuição de vagas das engenharias é preocupante, pois somente quatro modalidades respondem por mais de 65% das vagas: civil (24%), produção (18%), mecânica (11%), e elétrica (11%). Hoje existem 49 especialidades de engenharia autorizadas no MEC e essa concentração nas quatro áreas pode criar uma falsa expectativa de que iremos formar profissionais em quantidade suficiente para atender às necessidades de um país desenvolvido.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), somente 28% dos profissionais formados em engenharia exercem efetivamente a função típica de engenheiro. Na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e Renda em 2011, consta que a profissão de engenheiro é exercida no país por somente 232 mil profissionais.

Qualidade

A qualidade dos engenheiros formados, segundo dados do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes - Enade (2005 a 2008) é questionável, pois 42,3% dos formandos neste período obtiveram seus diplomas em instituições de baixo desempenho, 29,6% obtiveram desempenho mediano e somente 28,1% das instituições de ensino de engenharia obtiveram alto desempenho.

Precisamos proporcionar a união da teoria acadêmica avançada dos pesquisadores com a prática profissional dos engenheiros de campo, formando assim profissionais com base conceitual sólida associada à necessidade empresarial. É assim que se faz num dos países que mais exportam tecnologia: a Alemanha. Em 2013 é comemorado o ano da Alemanha no Brasil e o país é uma referência a ser seguida por nós. A formação do engenheiro alemão tem contato muito íntimo com as empresas, num processo misto, isto é, escola-empresa. “Diferentemente de outros países, o estudo aqui é fundamentalmente voltado para a aplicação prática e industrial”. “A receita do sucesso da formação alemã de engenheiros é a combinação de uma base ampla de conhecimento matemático teórico com know-how prático”

Quantidade

Hoje, há no Brasil 6 engenheiros por mil trabalhadores; nos Estados Unidos e Japão este número é de 25, e na Alemanha há 39 engenheiros por mil trabalhadores. Não há como comparar.

O Brasil tem cerca de 668 mil engenheiros registrados nos conselhos regionais de engenharia e agronomia (CREAs). Em 2010, o Brasil tinha 1,4 doutores para cada mil trabalhadores, já na Alemanha, eram 15,4. Além de termos menos doutores que a Alemanha, no Brasil somente 7,1% destes doutores estão na indústria, enquanto na Alemanha são 26,7%. Em 2007, somente 5% dos formandos em cursos superiores no Brasil eram de engenharia, na Alemanha, 12,4%. Conclusão: temos que ser mais ousados.

Como despertar os jovens para os estudos de engenharia? Os estudantes de nível médio não se apaixonam por equações matemáticas, derivadas e integrais; mas são loucos por computadores, aviões, carros e smartphones. Como formar engenheiros, e principalmente bons engenheiros, se não conseguimos sequer ensinar matemática no nível médio? Devemos ter como objetivo nacional melhorar substancialmente o ensino da matemática nas escolas de nível fundamental e médio

É necessário subsidiar intensamente as atuais escolas de engenharia, a flexibilização dos currículos e, principalmente, a internacionalização de nossas escolas através de intercâmbio com as melhores escolas mundiais (aproveitar este momento de grande desemprego na Europa). O programa Ciência sem Fronteiras contribuirá substancialmente para a melhoria da qualidade na formação destes futuros engenheiros.

Engenheiros brasileiros, fiquem tranquilos! Pelo menos quanto à concorrência dos engenheiros alemães. O mercado alemão tem atualmente aproximadamente 1,5 milhão de engenheiros (o que é considerado baixo por eles) e havia 111 mil vagas disponíveis para engenheiros em abril de 2012 no país. Quanta precisão!

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