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Gestão da Água e Energia

Ana Carolina Pacheco

Jornalista do IETEC

 

Com recursos hídricos escassos, preservação ambiental é questão de sobrevivência para as empresas

A questão da água está sendo discutida amplamente em todo o mundo. Não é por acaso. Apesar de ser o recurso mais abundante do planeta, o risco de escassez é crescente. Hoje, mais de um bilhão de pessoas já sofrem com a escassez da água, e de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), em 2030 a população mundial vai necessitar de 35% a mais de alimento, 40% de água e 50% a mais de energia. (imagem) Ações integradas entre governantes, setor industrial e consumidores devem ser realizadas com urgência, antes que a situação se torne irreversível.

O Brasil, apesar de ter uma posição privilegiada em relação a outros países, com uma das maiores reservas de água do mundo, 12%, vive hoje um momento não muito confortável em relação aos recursos hídricos. O acesso a esses recursos no país é desigual, com 81% concentrados na região amazônica.

A falta de chuvas, problemas de infraestrutura, gestão e planejamento são alguns dos fatores que levaram o país a vivenciar essa situação. O consumo cresceu numa proporção muito mais acentuada que a construção de novos reservatórios e outras fontes de geração de energia, e agora é necessário ter atenção redobrada, principalmente na eficiência energética e no combate às perdas da água tratada.

Segundo o engenheiro e ex-presidente da Eletrobrás, Aloísio Vasconcelos, duas atitudes devem ser tomadas rapidamente para evitar um possível racionamento: “É necessário liberar as usinas que já estão prontas para serem feitas na região amazônica e também as linhas de transmissão. Outra atitude importante é criar um programa de energias alternativas.”

Em relação ao setor industrial, Aloísio considera duas ações como fundamentais: “A primeira é usar e reusar, e ´tri-usar´, e ´tetra-usar´ a água. A água é um bem fantástico, não pode ser jogada fora, como hoje ocorre em algumas empresas. Além da perda, do desperdício, há também a poluição no rio, no córrego, para onde ela for.”

A segunda ação está relacionada à iniciativa em se fazer a eficiência energética, que segundo ele pode dar para algumas empresas, como por exemplo, o setor mecânico, automotivo e têxtil, até 18% de economia na conta mensal de energia: “Melhorar o fator de potência das máquinas, evitar a perda nos cabos, mudar a iluminação, ar condicionado inteligente, e um sistema de utilização de motores com alta performance. Isso é possível, o governo tem programas que incentivam isso, mas é necessário o industrial acreditar e fazer”, afirma.

Hoje é perceptível o aumento da preocupação das indústrias com relação aos recursos naturais, que são fundamentais em seus processos. O setor, que utiliza grandes quantidades de água e energia, tem investido cada vez mais na adoção de práticas que visam minimizar os impactos ao meio ambiente e promover ações sustentáveis. De acordo com o coordenador da Rede de Recursos Hídricos da Gerência de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Confederação Nacional Indústria (CNI), Percy Soares, a reutilização da água, por exemplo, além de promover a preservação do recurso, gera resultados econômicos não só em relação à conta de água, mas também na economia de energia e matéria prima.

A adoção da produção sustentável gera muitos benefícios além dos ambientais, como: fortalecimento e fidelidade da marca e do produto; maior produtividade; melhoria da qualidade do produto; maior facilidade de obtenção de crédito; melhoria das condições de trabalho; melhores relações com a vizinhança; etc.

De acordo com o estudo “Água, Indústria e Sustentabilidade” da CNI, o aprimoramento da governança da água no setor industrial é de extrema importância para o país: Conhecer as especificidades de cada situação e analisar a condição local é essencial para que sejam implementados os programas de governança das águas nas empresas.

Para tanto, é essencial para as empresas:

• Conhecer os mananciais, os fluxos de água e os balanços hídricos em seus processos produtivos.

• Incorporar na gestão dos negócios práticas voltadas ao uso racional da água e à conservação dos recursos hídricos, considerando a correlação dos dados físico-ambientais com os dados econômicos.

• Identificar, quantificar e gerenciar os riscos associados ao uso dos recursos hídricos ao longo da cadeia produtiva para garantir a perenidade dos negócios.

• Participar ativamente dos fóruns de recursos hídricos, conhecer as condições locais e envolver- se com demais usuários de água.

• Assegurar e aprimorar a transparência na divulgação de informações sobre o uso da água e o lançamento de efluentes nos relatórios de sustentabilidade e para todas as partes interessadas.

O estudo “OECD Environmental Outlook to 2050 - The Consequences of Inaction” sinalizou o crescimento da demanda de água fazendo um comparativo do ano 2000 a 2050 nos diversos setores que utilizam o recurso no mundo, com destaque para o crescimento da água para eletricidade e na indústria.

Um dos setores que tem uma forte interação com os recursos hídricos, tanto superficiais quanto subterrâneos, é o da mineração. E ele possui uma grande responsabilidade quanto aos cuidados com o recurso, que é fundamental para o negócio.

Uma das maiores empresas de mineração do mundo, a Vale, promoveu ações que geraram resultados satisfatórios quanto à gestão da água. De acordo com Fátima Chagas, gerente de Tecnologia Ambiental da Vale, “Em 2012 foram investidos cerca de US$ 125,9 milhões na gestão dos recursos hídricos, aproximadamente 12% do total de dos investimentos ambientais, incluindo iniciativas de inovação tecnológica, projetos de diagnósticos e equipamentos, entre outros.”

A Vale também conseguiu bons resultados quanto ao reaproveitamento da água na empresa: “O índice médio de recirculação em 2012 foi de 77%, um aumento de sete pontos percentuais em relação a 2011. Com isso, a Vale deixou de captar 1,227 bilhão de metros cúbicos de água de fontes naturais. Para se ter uma ideia, isso é o equivalente a cerca de duas vezes o consumo anual da cidade do Rio de Janeiro. Parte desse resultado é reflexo dos investimentos em tecnologias voltadas para o desenvolvimento de programas e ações focadas na redução da demanda e do consumo de água.”

No S11D, o maior projeto da história da Vale e também o maior da indústria de minério de ferro, localizado no Pará terá toda a sua produção feita por meio do beneficiamento à umidade natural, o que permitirá reduzir em 93% o consumo de água. Esta economia representa o equivalente ao abastecimento de uma cidade de 400 mil habitantes.

Em relação à indústria automotiva no Brasil, as ações voltadas para a economia de água reduziram o uso da água na fabricação de veículos em 29%, de 2008 a 2011. Na Fiat Automóveis, a recirculação da água que é utilizada nos processos produtivos é de 99%. Isso significa que a captação de água potável da rede pública para o uso industrial é praticamente nula, uma economia que corresponde ao abastecimento de uma cidade de 30 mil habitantes.

No final de 2013, a Fiat se tornou a primeira fábrica de automóveis do país a receber a certificação ISO 50001, de gestão de energia. Resultado do investimento na disseminação de tecnologias e práticas para a melhoria do desempenho energético em todos os seus processos de produção, desde o projeto até a montagem final.

 

O PAPEL DA ENGENHARIA

A engenharia tem um papel imprescindível na criação de soluções que permitam o desenvolvimento tecnológico sem que seja necessário agredir o meio ambiente. As grandes obras, necessárias para manter a qualidade de vida da população em geral e o crescimento da indústria, como hidrelétricas, ou obras destinadas a novas fontes de energia, precisam ter bons profissionais para a implementação de projetos que visem em primeiro lugar a preservação ao meio ambiente.

Para Aloísio Vasconcelos, são os engenheiros que equilibram a relação entre o desenvolvimento industrial e o meio ambiente: “É necessário conseguir uma harmonia entre aquilo o que o Brasil necessita em relação ao desenvolvimento energético e a preservação ambiental, e a engenharia dá mil soluções para isso. A engenharia vai evoluindo e criando ferramentas para solucionar essa questão.”

De acordo Antônio Malard, gerente de produção sustentável da Fundação Estadual do Meio Ambiente de Minas Gerais e coordenador da pós-graduação em Engenharia Ambiental no IETEC, “Profissionais da área ambiental, incluindo os especializados em engenharia ambiental, são os grandes fomentadores da produção e consumo sustentável. Partem deles as ações para uma produção mais limpa, que contemplam maior eficiência energética e no uso da água. Eles podem atuar em processos complexos, até ações simples para alcançar esse objetivo.”

Ele também cita como a inovação se relaciona com esse contexto: “A inovação tecnológica pode ser uma grande aliada para as ações que visam à preservação ambiental. A cada dia surgem novas tecnologias de tratamento de resíduos e efluentes, geração de energia, reuso de água, redução de consumo, mas muitas ainda não têm viabilidade financeira. Nesse sentido, tornar as inovações tecnológicas mais atrativas financeiramente é o grande desafio, sendo que o papel do Governo é imprescindível ao promover subsídios, incentivos, taxas, campanhas educativas, certificações (rotulagens ambientais), entre outras.”

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