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:: Editorial

Pesquisa tecnológica e competitividade

Ronaldo Gusmão

Diretor executivo do Ietec e coordenador geral da Ecolatina - Conferência Latino Americana sobre Meio Ambiente e Responsabilidade Social.

Percebemos hoje, infelizmente, que há um grande distanciamento entre os institutos de pesquisa e a realidade empresarial brasileira, o que é extremamente ruim para o país e para as próprias empresas. Isso acontece porque, em um país pobre como o nosso, todo investimento na área tecnológica tem que ter um retorno mais imediato, não pode ser a fundo perdido -como geralmente tem sido feito. Acontece que hoje a maioria dos institutos de pesquisa se volta para um desenvolvimento tecnológico distanciado da necessidade das empresas brasileiras. Muitas vezes, esses centros de excelência dispõem de uma tecnologia muito avançada, mas sem muita aplicabilidade no país.

Outro fator de desvantagem no Brasil se refere ao montante de investimento na área. Segundo dados do Ministério da Ciência e Tecnologia, o Brasil aplica apenas 0,7% de seu PNB em pesquisa e desenvolvimento, enquanto no Japão esse investimento chega a 3%, na França, 1,8% e na Alemanha, 2,8%. Tudo isso, sem contar que o PNB japonês nem se compara ao brasileiro. As disparidades são tão grandes que corporações multinacionais -automobilísticas e de informática, por exemplo- chegam sozinhas a investir mais que o Brasil.

De acordo com recente levantamento, realizado pela revista "Tecnologia Hoje", analisando a atuação de sete dos maiores institutos de pesquisa tecnológica do Brasil (IPT, CPqD, Cetem, Inpe, Tecpar, Cetec e CTI), sentimos que a falta de estratégia presente nestes centros é uma das maiores causadoras do referido distanciamento. Os institutos não oferecem uma resposta imediata aos anseios das empresas, o que resulta em um certo ceticismo por parte dos empresários, que se vêem obrigados a procurar, através de outros meios, a solução para seus problemas tecnológicos.

É preciso que os institutos de pesquisa passem a funcionar como empresas privadas e, principalmente, tenham uma diretoria de Marketing bastante atuante. O Marketing deve ser composto por profissionais que façam uma análise da necessidade de mercado -e também se antecipe ao que está por vir. Caso contrário, seremos obrigados a continuar assistindo ao desenvolvimento de projetos absurdos, que nada têm a ver com nossa carência.

Ainda em relação à necessidade de tornar os institutos de pesquisa mais "empresariais", é necessário que eles tenham condições de se sustentar. E isso só é possível a partir do aumento da prestação de serviços para a iniciativa privada. Hoje, se o governo parar de injetar dinheiro nos institutos, estes simplesmente deixam de existir. Deve, sim, haver um limite de verba do governo -para que possam ser desenvolvidos projetos de interesse social e diretrizes de ação para o governo. 50% do orçamento seria o suficiente para isso. A outra metade deveria vir de investimentos da iniciativa privada -que hoje investe muito pouco em tecnologia- para que fossem garantidas inovações tecnológicas plausíveis para as empresas brasileiras. Atualmente, ainda existem institutos, como o CPqD da Telebrás e o CTI (Campinas), que não tem sequer receita própria. Já outros, como o Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT), mostram uma preocupação em ter receita própria. Para um orçamento de US$ 63,4 milhões em 1994, o IPT recebeu por serviços prestados para a iniciativa privada US$ 8,2 milhões (12,9%).

Para o aumento do entrosamento entre centros de pesquisa e empresas, seria interessante que tanto os pesquisadores fizessem estágios periódicos nas empresas como que alguns funcionários das empresas levassem as necessidades de mercado para os institutos de pesquisa. Assim, as entidades de pesquisa teriam acesso à experiência empresarial - agilidade, qualidade e prazo de entrega- e, certamente, conquistariam grande parcela de mercado.

Acreditamos que, com a abertura de mercado, o quadro relativo a pesquisa e desenvolvimento no Brasil tende a melhorar. Nessa nova realidade, a iniciativa privada vai se ver obrigada a investir mais no desenvolvimento tecnológico, sob pena de ser engolida pela concorrência internacional. O ciclo tecnológico dos novos produtos está sendo cada vez menor -passando, em alguns casos, de um ano para até um mês-, o que força o empresário a "acordar" e investir em tecnologia.

Uma questão também muito importante para o desenvolvimento tecnológico no Brasil diz respeito às incubadoras de empresas. Bastante difundidas nos países de Primeiro Mundo, as incubadoras poderiam, no Brasil, ser acolhidas por institutos de pesquisa. Co-gerenciadas pelos institutos de pesquisa e por uma entidade empresarial, dessas incubadoras surgiriam pequenas e médias empresas, que são as mais competitivas em termos de tecnologia.

 

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