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:: Gestão e Tecn. da Informação

Impactos das novas tecnologias da informação

Armando Barros de Castro

Economista e Doutor pela ESALQ/USP.

A incorporação das novas tecnologias da informação, tanto no âmbito público como no privado, tem-se limitado com freqüência a justificativas eminentemente técnicas. Avolumam-se, todavia, evidências de que esse tipo de abordagem é, em grande parte, responsável pelos decepcionantes resultados obtidos em inúmeras experiências. Constata-se, portanto, uma realidade aparentemente paradoxal: iniciativas de modernização caracterizadas pela incorporação de equipamentos inquestionavelmente mais potentes revelam pífios resultados.

Limitado à experiência de instituições de pesquisa no Brasil, o presente artigo deverá avaliar aspectos desse paradoxo. Particularmente, pretende-se explorar as limitações de uma abordagem técnica, levantando a proeminência de outros fatores, inclusive o da globalização.

Buscou-se inspiração metodológica no novo paradigma da física moderna, o qual constata que os elos da causalidade típicos da mecânica clássica são insuficientes -ainda que úteis- para explicar fenômenos tanto do micro quanto do macrocosmo, na medida em que insuspeitados níveis de interdependência e auto-organização da matéria contrapõem-se à não menos surpreendente tendência ao caos e à entropia.

Como observa Capra, "uma das maiores descobertas da física contemporânea foi a de se dar conta de que não existiam entidades físicas independentes, que a realidade era um conjunto de correlações, um emaranhado de eventos interconexos, uma interface entre o observador e observado. É um dos tipos específicos de correlação que chamamos de `partícula'; esta não é mais um grão de areia ou uma bola de bilhar, mas uma troca permanente de energia e informação".

A analogia, portanto, é simples: no atual contexto de globalização, potencializada pelas novas tecnologias da informação, é imprescindível reconhecer a emergência de múltiplos e diferenciados níveis de auto-organização das atividades, fenômeno este que transforma os nexos de hierarquia e causalidade entre os participantes, instaurando uma lógica que transcende as abordagens de inspiração mecanicista.


SINTOMAS E EFEITOS DA GLOBALIZAÇÃO
Ainda persistem ecos da discussão que empolgou boa parte dos anos 80: o mercado substituiria o Estado e o planejamento? Todavia, até mesmo independentemente dos aspectos teóricos, os fatos e os desdobramentos históricos dos anos recentes incumbiram-se de desmentir essa perniciosa proposição dicotômica. Assim, os países asiáticos emergentes, emblematicamente representados pelo Japão, evidenciaram que os fundamentos do sucesso no contexto da globalização são as novas expressões da articulação entre Estado e mercado. Nos EUA, ainda que tardiamente, um dos representantes típicos do capitalismo empresarial oligopolista, o sr. Lee Iacocca -ex-presidente da Chrysler- declararia que a explicação para a importância competitiva norte-americana dos anos 80 seria a insuficiência da intervenção estatal, acrescentando ainda, como prova de sua tese, que nos setores em que ocorria planejamento e apoio com subsídios -setores agrícola eaeroespacial- os EUA mantinham-se na liderança internacional.

Ainda que justo, o reconhecimento não é atual na medida em que tem implícita a premissa de que ainda vigora a dicotomia básica entre Estado e mercado. Atualmente, na esteira da globalização emergem novas e diferenciadas manifestações de articulação entre o público e o privado, e os atores típicos do capitalismo do milagre do pós-2o Guerra Mundial perdem parcela expressiva de poder, a exemplo do Estado-nação e da grande empresa oligopolista.

Perde o Estado-nação, pois torna-se impotente para estabelecer, unilateralmente, a política industrial ou a monetária e cambial, num contexto de profunda interdependência e, ao mesmo tempo, concorrencial. O Estado também revela-se incapaz de assegurar -como no passado- os benefícios típicos do Estado de bem-estar social para seus patrícios, quando os demais competidores não mantêm, num nível equivalente, enquanto os ganhos de produtividade disseminam-se com a velocidade da atual difusão das novas tecnologias.

As recentes transformações também retiram a supremacia imperial dos grupos oligopolistas, à proporção que nem as economias de escala -mas as de escopo- nem a inovação de produtos -mas o acesso rápido às novas tecnologias e aos canais de comercialização- tornam-se as variáveis estratégicas.

Trata-se portanto de uma nova, veloz e desafiadora realidade. Alteram-se o papel e o significado dos "atores", a hierarquia decisória e, conseqüentemente, o padrão institucional e organizacional tanto no âmbito público como no privado.

São crescentes, portanto, os indícios de uma nova configuração da questão hierárquica e organizacional em que se acentua a dimensão da interdependência e da flexibilidade através da emergência de diferentes níveis de descentralização e de auto-organização.

Assim, as características do pós-fordismo -a flexibilidade e a des-hierarquização- não se realizam apenas no espaço intramuros do universo empresarial, mas estendem-se ao sistema produtivo em geral e ao Estado.

Deve-se ter presente, todavia, que particularmente nas universidades e institutos de pesquisa ainda se preservam fortes componentes de inspiração fordista em suas formas de organização. Assinale-se, adicionalmente, que no caso do Estado, no Brasil, verifica-se enrijecimento adicional das concepções hierárquicas, em decorrência do conteúdo positivista presente desde sua organização republicana. Assim, há resistências adicionais, de natureza ideológica, às transformações inerentes a incorporação das novas tecnologias.

Não menos significativas são as resistências às mudanças decorrentes das estruturas de poder consagradas pelas hierarquias vigentes.

No entanto, o pleno desfrute das potencialidades dessas inovações depende da "reengenharia" tanto nos países de comportamento tradicional, a exemplo dos EUA, como nas empresas e, notadamente, nas instituições de pesquisa. É que a produção industrial, em contraste com a produção científica, ainda depende, em maior grau, do manuseio e transformação de matérias-primas, o que lhe confere maior rigidez. No âmbito da pesquisa, no entanto, o que se pode entender por matéria-prima -a informação- adequa-se em especial às modernas tecnologias exponencialmente potencializadas, recentemente, pela temática.

Dessa forma, nessas instituições os desafios organizacionais e administrativos relacionados a hierarquia e, conseqüentemente, ao poder reproduzir-se-ão de forma ainda mais contundente nessa etapa de atualização tecnológica.

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