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:: Gestão de Projetos

A aplicação de metodologia de gerenciamento de projetos na atividade turística - Estudo de caso de duas cidades turísticas de Minas Gerais

Mariana Helena Diniz Ferreira

Pós-graduada em Gestão de Projetos pelo Ietec.

 

Resumo

Atualmente, valoriza-se muito o turismo como uma das melhores alternativas de desenvolvimento econômico de municípios e países, enfatizando-se, sobretudo o dinamismo e o potencial de crescimento que o setor apresenta em nível mundial; as vantagens dessa atividade em termos de geração de emprego e renda a um custo relativamente baixo e o fato desta ser uma indústria “sem chaminés”, ou seja, pouco poluidora e com potencial para ajudar a preservar o meio-ambiente.

Embora possa desencadear essas e outras vantagens, a indústria do turismo está sendo desenvolvida cegamente, onde o contexto em que se opera, não utiliza adequadamente uma metodologia de planejamento e adoção de ações estratégicas ajustadas a esse contexto, podendo comprometer o andamento dos projetos de desenvolvimento turístico de muitas regiões.

Nesse sentido, o principal objetivo deste artigo é mostrar que a aplicação de metodologia de gerenciamento de projetos na atividade turística pode acarretar resultados efetivos para o setor e levantar certas necessidades que se colocam para os empreendedores turísticos na chamada “Gestão de Projetos”.


Introdução


Nas últimas décadas, o turismo vem conquistando grande importância em todos os setores da sociedade, apresentando um crescimento considerável ao longo do tempo que o tornou um fenômeno responsável por boa parte da economia e da geração de empregos mundial. Por isso, o turismo tem sido alvo de diversas pesquisas, estudos e discussões que possibilitem uma melhor compreensão de sua crescente expansão.

Como o turismo é caracterizado por sua multidisciplinaridade, sendo responsável por diversos fenômenos políticos, sociais, culturais e econômicos, torna-se difícil a formação de definições que analisem as suas inúmeras interpretações que desenvolvam o processo de produção científica na área.

Em 1911, o economista austríaco Hermann Von Schattenhofen escrevia sobre o turismo dando início a uma série de definições que abordavam a atividade de maneira restritivamente econômica: “Turismo é o conceito que compreende todos os processos, especialmente os econômicos, que se manifestam na chegada, na permanência e na saída do turista de um determinado município, país ou estado”. (SCHATTENHOFEN apud MOESCH, 2002, p. 10).

Em 1929, a escola de Berlim enfatiza a idéia de deslocamento de pessoas fora de seu local de residência, principalmente através dos autores Benscheidt e Glücksmann. Para Morgenroth, citada por Moesch (2002, p.10), turismo é o “tráfego de pessoas, com o objetivo de satisfazer suas necessidades vitais e de cultura ou para realizar desejos de diversas índoles, unicamente como consumidores de bens econômicos e culturais”.


A gestão de projetos e o Turismo


Gestão de Projetos é um termo cujo uso cresce continuamente em todos os setores nos dias de hoje. O PMBOK (Project Management Body of Knowledge), editado pelo PMI (Project Management Institute), define projeto como um esforço temporário realizado para criar um produto ou serviço único.

Com possibilidade de aplicação generalizada, quer seja na criação de um novo produto, na reengenharia de processos, na mudança organizacional de uma empresa, dentre outras hipóteses, o gerenciamento de projetos vem sendo utilizado desde o século 20, onde em 1950 surgiu pela primeira vez a disciplina de gestão de projetos. Ultimamente alguns grandes nomes da área de administração e gestão, têm acentuado a importância do gerenciamento de projetos como a estratégia de sucesso de muitas organizações.

Como exemplo, pode-se citar Tom Peters que diz; “Nós agora vivemos em um mundo de projetos (...), para administrá-lo será necessário um mundo de novos conhecimentos e habilidades” (1994).

Por esses motivos e pelas dificuldades que a indústria do turismo enfrenta em seus projetos, principalmente no que diz respeito a sustentabilidade, definida pela OMT como: “Turismo sustentável é aquele ecologicamente suportável em longo prazo, economicamente viável, assim como ética e socialmente eqüitativo para as comunidades locais. (OMT, 1995)”; é que se defende o uso de metodologia mais adequada e com resultados eficazes nesse setor em ascensão. Para Rejowski (1996), os fatores que geram problemas na atividade são as falhas de uma terminologia fixada, além da carência de definições precisas.

Se o turismo atua como instrumento transformador de desigualdades econômicas e sociais, promove a criação de emprego e renda, é também verdade que, mal planejado, traz custos econômicos, sociais e ambientais significativos, onde as conseqüências muitas vezes são irreversíveis.

Mostra-se necessário o uso de metodologia de gestão de projetos para se alcançar bons resultados nos projetos da indústria do turismo, onde em um contexto organizacional esse tipo de gerenciamento será propicio e facilitador, resultando em retornos previsíveis, potencializando a gestão estratégica da região, cidade ou país e aumentando o clico de vida do mesmo sem que ocorra saturação em pouco tempo.


Aspectos da Implantação do Gerenciamento de Projetos em Turismo


Como qualquer outro produto, o turismo possui várias fases, quando se coloca um atrativo ou uma localidade como algo tangível, percebe-se que ele, vive dentro de um ciclo parecido com produtos de consumo lançado no mercado. Existe a fase onde surge a idéia do produto, a pesquisa de aceitação do produto, a elaboração, os testes, o lançamento no mercado, o retorno e a saturação do produto no mercado, seja por surgimento de concorrentes ou mudanças tecnológicas etc.

Com atrativos turísticos ocorre o mesmo,  porém além do produto (atrativo) se saturar no mercado, ele é degradado e automaticamente desaparece e deixa de cooperar com a economia da região.

Todo segmento de mercado tem necessidades de curto, médio e longo prazos, cujo atendimento exige medidas com diferentes características. Algumas dessas medidas podem ser adotadas rapidamente, enquanto outras, ainda que urgentes, demandam um longo tempo.

Esse é um dos motivos por que o gerenciamento de projetos se torna necessário: há que se identificar qual é o escopo no qual será trabalhado, o custo que ele terá, qual o prazo de entrega, como envolver e atender os stakeholders, como manter a qualidade, levantar os riscos que estão envolvidos e o principal deles no que diz respeito ao turismo, é como monitorar e controlar a implantação.

Se ações como implementar medidas corretivas e evolutivas, adequar portfólios de  produtos e serviços, posicionar-se no mercado, defender-se da concorrência, aproveitar oportunidades de negócios, estabelecer parcerias, capacitar equipes e aprimorar processos, entre outras tantas, são difíceis de se realizar com um planejamento adequado, sem ele podem exigir esforços hercúleos e investimentos maciços.

Ou podem, simplesmente, se mostrar inviáveis. Como o mercado do turismo é muito dinâmico e são poucos os profissionais capacitados nessa área, isso sempre acontece, os esforços no gerenciamento dos projetos são gigantescos, porém na maioria das vezes sem resultados.


Estudo de caso de duas cidades turísticas de Minas Gerais


Um exemplo da problemática que envolve a falta de gerenciamento dos projetos de  turismo, é uma pesquisa feita por alunos da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, em um trabalho de conclusão de curso(2006). O trabalho tinha o objetivo de transformar a música mineira em um potencial mercadológico de Minas Gerais utilizandose do marketing experimental e dos conceitos de posicionamento de mercado. Foram realizadas entrevistas com os responsáveis e os gestores dos projetos das secretarias de turismo das cidades do Serro e Diamantina em Minas Gerais.

Nessas entrevistas percebe-se claramente que os profissionais que trabalham com os projetos não possuem qualificação para realizarem esse tipo de trabalho. Foram extraídos alguns trechos das entrevistas¹  que demonstram que os gestores de projetos de turismo dessas cidades possuem pouco conhecimento sobre gerenciamento de projetos, usando até o termo “tocar projetos” quando dizem a respeito ao andamento dos projetos.

“(...) e eu sou contratado da reitoria nos estados tocando dois projetos: um de catalogação, restauração e encadernamento e digitalização do acervo do jornal (...)”(2006)

“A gente criamos um projeto esse ano de , de, de músicas clássicas, de músicas eruditas, de uma música(...)mas precisa formar ele de novo e a gente criou esse projeto e tamo fazendo ele desde o princípio do ano(...) (2006)

De acordo com os depoimentos a seguir, percebe-se que as cidades possuem muitos projetos e grandes investidores, mas que deveriam ser gerenciados de forma correta, utilizando metodologias de gerenciamento de projetos e sendo geridos por profissionais qualificados.

“Agora eu tô no Chefe de Divisão do Turismo. Então, agora que eu tô me interando na questão do turismo e dos projetos, do que tem de planejamento de eventos das cidades entendeu? Porque até então eu só trabalhava com o turismo rural. Como eu trabalhava na Secretaria de Agricultura, aí eu tava só trabalhando com a questão do queijo como produto turístico, aí fazendo alguns diagnósticos nas fazendas entendeu? A área de turismo, os projetos e planejamento, as outras questões que envolvem turismo eu tava completamente por fora, agora é que eu te me interando.”. (2006)

“Agora, a gente tem projeto de criar a Casa de Congadeiro. A gente tem a área né, tem um projeto na Secretaria de Cultura pra fazer a Casa de Congadeio (...)” (2006)

“ (...) praticamente a gente, não sei se vou usar a palavra correta, ela paga todos os eventos e financia todos os projetos (referindo-se a secretaria de turismo) , ela paga, ela financia todos(...)” (2006)

Através desses fragmentos2 das entrevistas realizadas com os profissionais que atuam na área de gerenciamento dos projetos em turismo, pode-se ter uma visão de como os projetos do setor são geridos. Diamantina é considerada pólo turístico de Minas Gerais, possui o título de patrimônio da humanidade e seus projetos são realizados com pouco profissionalismo e metodologias. Com esse exemplo, pode-se traçar mesmo que seja em uma visão generalizada, como a metodologia de gestão de projetos é pouco utilizada em um ramo tão promissor.

Ou seja, este cenário nos leva a crer que está fazendo falta a este setor, algo que alinhe estratégia de negócio com projetos e operações, de forma a assegurar a aderência destes três pilares, garantindo que os investimentos planejados e efetuados, estão realmente propiciando o retorno esperado, ou seja, um processo, de processos que possa ser utilizado de forma única para alinhar estratégia, projetos e operação de forma que as três frentes de trabalho trabalhem sobre a mesma base como um todo.

Percebe-se que no caso dessas duas cidades do estudo em questão, possuem uma grande quantidade de projetos e tomando como ponto de partida que os projetos de turismo têm como objetivo o desenvolvimento social, econômico e ambiental juntamente com a sustentabilidade, seja de um país, estado, ou região, pode-se sugerir que seja implantado a gestão de projetos utilizando-se do gerenciamento por portifolios, onde, a melhoria do gerenciamento viria de encontro com as estratégias priorizadas impactando assim nos processos e planejamentos existentes convergindo os investimentos com retornos reais e esperados.


Gerenciamento por Portfólio


Segundo The Standard Portfólio Management, gerenciamento de portfólios é um dos muitos métodos de Governança utilizados pelas empresas, que é a ação de criação e utilização de um framework para alinhar, organizar, e executar atividades coletivamente coerentes e de maneira inteligente para atingir as metas estipuladas, ou seja, processos de negócios. (2006)

Fig1. Portfolio Relationships - Example - The Standard Portfolio Management, 2006

Um portfólio reflete o plano dos projetos que serão realizados e os investimentos que eles dispõem, representa as prioridades identificadas na localidade a ser desenvolvida, as decisões a serem tomadas, e onde recursos são alocados, tudo, de acordo com os objetivos e metas do desenvolvimento do turismo.

Fig2. Contexto Organizacional do Gerenciamento de Portfólios -The Standard Portfólio Management 2006

De acordo com o PMBOK, gerenciamento de portfólios é um dos métodos de Governança, que é a criação de um processo (2004), ao invés de criar um processo específico e exclusivo para um único segmento turístico ou atrativo de uma localidade, a proposta é utilizar um modelo único de gerenciamento dessa localidade permitindo inclusive medir o q quanto essa localidade se manterá sem ser degradada e continue sendo visitada.


Conclusão


Sabendo-se da necessidade de melhor gerenciamento dos projetos da indústria do turismo, torna-se claro que a utilização de metodologias de gestão de projetos e gerenciamento de portfólios, seria um das soluções para fortalecer o turismo economicamente, porém de forma organizada , proporcionando o crescimento da atividade e atingindo os objetivos da sustentabilidade.

Esse trabalho será um desafio para gestores de projetos, pois será necessário a adaptação da metodologia de projetos, para um segmento de mercado que abrange tanto os aspectos físicos, econômicos, ambientais e principalmente social das localidades. Porém será um trunfo para esses profissionais quando os resultados desse trabalho começar a aparecer e eles perceberem que o que eles geriram passou a fazer parte de um cenário pouco visto no segmento do turismo, a sustentabilidade da localidade trabalhada.


Referências Bibliográficas


OMT – Organización Mundial del Turismo. Introducción al Turismo. Madrid, 1998. PROJECT MANAGMENT INSTITUTE.Um guia do conjunto de Conhecimentos em Gerenciamento de Projetos – Tradução oficial para o Português (PMBOK), 3rd. ed. EUA, 2004.

PMI, The Standard for Portfolio Management, 1rd. ed. EUA, 2006.

MOESH, Marutschika Martins. A produção do saber turístico. São Paulo: Contexto, 2002.

BENI, MÁRIO CARLOS. Análise estrutural do turismo. São Paulo: Editora SENAC, 1998.

GONSALVES, Elisa Pereira. Iniciação à pesquisa científica. Campinas: Alínea, 2001.

PETERS, TOM. Liberation Management. Necessary Disorganization for the Nanoseconds Nineties. Ed. Fawcett, EUA, 1994.

FERREIRA, M. H. et al. A Música como Experiência e Diferencial Mercadológico no turismo: um estudo de caso sobre o trecho Serro a São Gonçalo do Rio Preto - Estrada Real – MG. 2006. 273f. Projeto de conclusão de Curso (Bacharel em Turismo), Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC – MG.

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1 Citações retiradas com autorização dos autores do trabalho de conclusão de curso,2006 ( vide referências bibliográficas)

2 Citações retiradas com autorização dos autores do trabalho de conclusão de curso,2006 ( vide referências bibliográficas)

 

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