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Meio Ambiente :: Geral

Saídas para consumo e produção sustentáveis

Beatriz Luz

Engenheira Química pela Universidade Federal do Rio e mestre em Engenharia Ambiental pela Faculdade de Surrey, na Grã-Bretanha.

 

Irei abordar neste artigo sobre a identificação de tecnologias e práticas internacionais sustentáveis que possam ajudar os industriais brasileiros a desenvolver o segmento no País. Meus pressupostos serão os de que nossa capacidade de aprendizado é ilimitada, que aprendemos tanto o quanto ensinamos, na troca de idéias, novas idéias são geradas, a tecnologia transforma produtos do dia para noite, nada se encontra no estado final que não possa ser melhorado ou modificado, resíduos viram recursos e lixo vira dinheiro.

Nesse sentido é importante abordar o fenômeno do aquecimento global e dos papéis da indústria, do governo e do consumidor. O aquecimento global e seus efeitos estão presentes em vários aspectos do nosso dia-a-dia. Para muitos, ponto crítico já foi atingido. As medidas necessárias não são mais preventivas, mas corretivas.

As pressões são constantes sobre indivíduos e empresas na busca de alterações nos hábitos de consumo, meios de locomoção e na forma com que utilizamos e exploramos os recursos naturais. Mas o que fazer para reverter a situação? Qual a solução para se atingir produção e consumo sustentáveis? Quem é o responsável?

No caso da indústria, os empresários são capazes de promover as mudanças voluntariamente ou elas dependem da pressão de governos para serem realizadas? Quanto aos governos, eles devem centrar as ações apenas no desenvolvimento de políticas de controle ou oferecer ferramentas e incentivos para que a indústria adote práticas mais sustentáveis?

Na ponta do consumo, as pessoas têm o papel de direcionar o mercado de forma a que a preferência de compra seja sempre dada a itens de produção local? Cabe ao consumidor requisitar mais e mais informações sobre o ciclo de vida do produto, para uma análise mais crítica das práticas e ética das empresas, ou isto é feito apenas de forma obrigatória através de medidas do governo?

A realidade é que não existe apenas uma solução ou um responsável para se atingir produção e consumo sustentáveis. Não é por meio de uma legislação mais restrita ou de uma conscientização maior dos consumidores que as empresas irão mudar suas práticas de negócios, com vistas a reduzir o impacto dos seus processos produtivos sobre o meio ambiente. A decisão final é sempre tomada com base na análise de custos, viabilidade econômica, efeito nas vendas e, conseqüentemente, no lucro.

Sendo assim, vou explicar como os ingleses desenvolveram um modelo em que o governo gera pressões econômicas por meio de novos impostos, mas, ao mesmo tempo, fornece ferramentas de apoio à indústria, para incentivar uma produção mais limpa e colaborar com o desenvolvimento sustentável.

O governo britânico criou em 1996 o que foi classificado como o primeiro sistema de taxação com o objetivo puramente ambiental. O imposto foi denominado Landfill tax (taxa de disposição de resíduos em aterros sanitários). Ele foi criado para aumentar o custo de disposição de resíduos em aterros sanitários, criando pressão econômica e forçando a indústria a eliminar ou reduzir a geração, diminuir o volume de resíduos enviados a aterros e considerar oportunidades para reuso ou reciclagem.

O valor inicial era equivalente a R$ 21 por tonelada de resíduo. Em três anos, alterações no governo fizeram com que o valor do imposto fosse elevado a R$ 30. Aumentos anuais sucessivos aumentaram a pressão sobre as empresas. Atualmente a taxa encontra-se no valor equivalente a R$ 72.

As novas políticas ambientais, com exigências e restrições, assim como os elevados custos de disposição de resíduos, forçaram as indústrias a analisar suas práticas e modificar o gerenciamento de seus resíduos para manter a posição no mercado.

A indústria, porém, nem sempre sabe o que precisa ser feito para cumprir as exigências legais e aumentar a eficiência. É preciso ter acesso a ferramentas que vão ajudá-la no cumprimento das leis ambientais, evitando danos e, o mais importante, mantendo-a competitiva no mercado.

Sendo assim, o governo inglês criou programas financiados pela arrecadação do imposto, que foi utilizado para tornar a indústria mais eficiente, seguindo os conceitos de eliminação, redução e/ou reciclagem de seus materiais.

Guias técnicos, eventos, publicações, consultoria-técnica, tudo foi fornecido às indústrias a custo zero. O objetivo era fazer com que os empresários entendessem melhor a legislação e suas obrigações legais, reduzissem a geração de resíduos e aumentassem o uso eficiente de recursos, assim como os níveis de reuso e reciclagem.

Assim, por meio de políticas ambientais, monitoramento, impostos e, também, com incentivos fiscais e programas de suporte gratuito, o governo inglês conseguiu aumentar a conscientização da comunidade industrial e transformar o mercado de gerenciamento de resíduos. Creio ser possível adaptar esse modelo para a realidade brasileira.

É claro que haverá sempre questionamento quanto às metodologias e aos resultados obtidos. O próprio governo inglês está reavaliando os beneficios e a direção dos programas para os próximos anos.
O fato é que resíduos passaram a ter valor. São muitos os exemplos em que materiais residuais são transformados e reutilizados em diversas aplicações (voltarei ao assunto em outros artigos).

Portanto, a solução não é simples. Envolve o governo, a indústria e a comunidade civil. Consiste de uma série de atividades que se interligam e se complementam. São leis ambientais, programas de incentivos, suporte técnico, gerando maior conscientização da indústria, conhecimento dos consumidores e transformação de paradigmas. Somos todos responsáveis como consumidores, cidadãos e trabalhadores.
 

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