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:: Inovação e Criatividade

Inovação tecnológica

Roberto Nicolsky

Físico, diretor-geral da Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica

Estado de Minas, 10/01/09 - Caderno Opinião - p. 11

O Brasil vem decaindo na lista do escritório norte-americano de registro de patentes (USPTO), superado por outros emergentes nas últimas três décadas. Pior é o fato de a matriz tecnológica nacional não ter evoluído para setores mais dinâmicos da indústria, a exemplo do que ocorreu nos países asiáticos. Neles, políticas de apoio universal à inovação impactam todas as cadeias produtivas e fazem avançar a microeletrônica, setor transversal no qual uma patente agrega valor à tecnologia de outras indústrias. No Brasil, por sua vez, parece faltar uma visão estratégica na política de inovação, pois a distribuição por setores se mantém praticamente a mesma e desprivilegia os segmentos mais promissores.

No triênio 2005-207, Malásia, China e Índia apresentaram, na área eletrônica e de software, um grande dinamismo tecnológico, com taxas recordes de crescimento. A Índia, que só chegou a ultrapassar o Brasil no USPTO há 10 anos, dobrou o número de patentes nessa área em relação ao triênio anterior, enquanto o nosso país permaneceu no baixíssimo patamar de 11%. Ainda neste último triênio, a área de farmácia-biotecnologia brasileira foi a única que apresentou expansão (54%). Esse resultado expressa um bom aproveitamento da prioridade da política industrial, destacando o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), nos últimos anos, como uma agência de fomento em inovação na área de farmoquímicos e produtos farmacêuticos.

Já o segmento de máquinas/mecânica/transportes caiu 26% em termos absolutos. E quase todas as outras área também apresentaram declínio, significando que o Brasil vem decaindo em obtenção de patentes de um forma geral (ou flutuando em toro de um baixo valor estacionário  tanto nos setores de ponta como nos tradicionais. As estatísticas mostram que é pouco efetiva nossa política de inovação tecnológica nas áreas mais promissoras, nas quais outros países emergentes estão, não por acaso, se especializando. Estamos ficando para trás na indústria  eletrônica, hoje uma das mais dinâmicas e promissoras em termos de inovação, pois está ligada à automação industrial como um todo e confere competitividade às demais indústrias, gerando um efeito em cadeia. Na contramão da bem-sucedida prática indiana, em nosso país o compartilhamento de risco se resume a poucos tópicos não demandados pelas indústrias e os incentivos fiscais estão restritos às grandes empresas.

Foi a ousadia da estratégia na área de eletrônica que mudou a matriz tecnológica da China e da Índia, tornando esses países líderes em crescimento entre os emergentes. Eles cresceram com base nas invenções incrementais, ou inovações, realizando pequenas melhorias em tecnologias já existentes. Não se conhece nenhum produto lançado por esses países. O LCD, ou monitor de cristal líquido, é um bom exemplo do poder da invenção incremental. A descoberta rendeu um Prêmio Nobel à França, tendo sido popularizada pela japonesa Sony, mas hoje as marcas líderes são as coreanas Samsung e LG e o país que mais fabrica o produto é a China.

Os emergentes que crescem aproveitam as oportunidades em setores de ponta para agregar pequenas melhorias aos seus produtos. Enquanto isso, o Brasil mantém uma postura arrogante, pretendendo uma posição entre as indústrias de ponta, mas, na prática, continua a crescer basicamente na exortação de commodities. Ainda que isso expresse uma elevação da competitividade e do conteúdo tecnológico do agronegócio, não podemos nos contentar com a condição de mero exportador de produtos primários, pois assim ficamos vulneráveis a políticas de preços que não controlamos.

O caminho não é fácil. Gerar tecnologia envolve fatores complexos, como a educação crítica, o estímulo à iniciativa e, principalmente, compartilhamento direto com a empresa do risco tecnológico, para dar a partida, além de benefícios fiscais para a sua continuidade. Mas, se não nos dispusermos a ousar nessa área, nunca sairemos do lugar. Diz-se que o Brasil já perdeu muitos trens – os da microeletrônica, da indústria farmacêutica, e outros – mas devemos acreditar que não os perdemos; passaram apenas alguns vagões. Uma questão se impõe: quantos vagões mais deixaremos passar até decidirmos efetivamente entrar no trem do crescimento acelerado? (Com André Korottchenko de Oliveira, engenheiro eletrônico, consultor em gestão de patentes)

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