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:: Meio Ambiente

A evolução das estratégias em gestão ambiental

Marco Túlio Bertolino

Consultor e mestre em engenharia ambiental

Até há pouco tempo, as exigências referentes à proteção ambiental eram consideradas como um freio ao crescimento, um fator de aumento dos custos de produção. Esta forma de pensar pode ser explicada pelo fato de que quando a questão ambiental é tratada sob o ponto de vista econômico ortodoxo, a visão resume-se à ecologia versus economia, ou seja, sob o ponto de vista da teoria econômica tradicional, a preservação e o uso racional dos recursos naturais contrapõem-se ao desenvolvimento econômico e à lucratividade da empresa. No entanto, os embates empresariais não ocorrem no cenário mundial atual, descritos pela teoria econômica tradicional, o que levou a uma reavaliação deste ponto de vista sob outra ótica.

Um aspecto importante a ser observado na questão ambiental contemporânea é que as dimensões econômicas e mercadológicas das questões ambientais têm-se tornado cada vez mais relevantes. Elas têm representado custos e/ ou benefícios, limitações e/ ou potencialidades, ameaças e/ou oportunidades para as organizações.

Mas este ganho de importância das questões ambientais nas estratégias empresarias não surgiram ao acaso, pois existe no setor ambiental uma grande diversidade de grupos de reivindicação que podem ser classificados em grupos de interesse social e mercadológico. Pertencem aos primeiros os legisladores, órgãos públicos federais e estaduais, circunvizinhos, organizações ambientalistas e de consumidores, mídia, público em geral.

Aos últimos pertencem clientes, investidores, financeiras (bancos e outras instituições que evitam investimentos em negócios com perfil ambiental conturbado) e seguradoras. Cada um dos grupos fazem valer suas reivindicações através de meios que lhes são disponíveis. Aqui surgem desenvolvimentos políticos, ações dos órgãos públicos, pressão da sociedade, testes de empresas e produtos, reportagens, alterações na lei da procura, taxas de seguros, encarecimento de créditos ou prejuízos à imagem que representam perdas de negócios e conseqüentemente de lucratividade.

Neste contexto, com o passar dos anos, sobretudo a partir da década de 80 nos países desenvolvidos, surgem novos conceitos que buscam atender tanto as organizações quanto ao meio ambiente, como o desenvolvimento sustentável e o ecodesenvolvimento, no campo das teorias de desenvolvimento, e a Produção Mais Limpa e o Gerenciamento Ambiental da Qualidade Total no campo empresarial, acentuando os vínculos positivos entre preservação ambiental, crescimento econômico e atividade empresarial. Em paralelo, ocorre um significativo avanço na esfera legal ambiental, onde os legisladores respondem aos novos anseios da sociedade sobre as questões ambientais, contribuindo sem dúvida como um forte impulsionador de mudanças.

Para a maioria das corporações, a preocupação com as questões ambientais começa pela necessidade de adaptações para atender imposições regulatórias que requerem certos níveis de desempenho ambiental. Surgem também outros requisitos que pertencem à conduta do negócio: financeiro, segurança do trabalhador, compromissos com clientes. Nesta fase, a atividade ambiental nas organizações tem seu direcionamento focado em ações para atenuar danos à saúde de trabalhadores e, também, em permitir a redução dos níveis de emissões, efluentes e resíduos.

Numa segunda fase são dirigidas atividades à tarefa de revisar produtos atuais e processos, para minimizar seus impactos ambientais, principalmente por aproximações simples e diretas, como melhorar o desempenho de processos e a substituição de materiais poluentes por outros que causem menos impacto. A escala de tempo típica para ações de prevenção da poluição e seus efeitos são um ou dois anos.

Ações típicas incluem prevenção de vazamentos, conservação de energia etc. Nenhuma mudança significativa é feita em produtos ou processos nesta fase, mas o modo com o qual eles são fabricados é aperfeiçoado. Quase por definição, a fase de prevenção da poluição só está preocupada com atividades dentro dos portões da fábrica.

Na terceira fase é incorporado o conceito de Design Ambiental, conhecido como DfE (Design for Environment), descrito, como um processo pelo qual um vasto espectro de considerações ambientais são levadas em conta como um passo rotineiro do desenvolvimento de processos e produtos. Geralmente os componentes que o descrevem não são requeridos através de regulamentos e podem ou não representar incentivos financeiros. Porém, cada vez mais freqüentemente clientes exigem produtos que possam ter demonstrado sua superioridade ambiental e é o Design Ambiental a estrutura de desenvolvimento que pode prover acesso para esses mercados.

Uma vez que um projeto é finalizado, ou quase finalizado, pode ser usada a Análise de Ciclo de Vida (ACV) para uma avaliação completa de todas as considerações que devem ser analisadas no projeto de produtos ambientalmente superiores. Nesta fase, o comportamento pró-ativo já pode ser observado pelo tipo das ações tomadas.

Na quinta fase, surge a Ecologia Industrial (EI) que é o meio pelo qual a indústria pode, racional e deliberadamente, abordar e manter uma desejável capacidade de suporte (carrying capacity), permitindo a continuidade da evolução econômica, porém, também considerando a evolução cultural e tecnológica. Estes autores ainda defendem que a utilização da EI resultaria em uma interação benigna com o ambiente, porque otimiza todo o processo de manufatura, tanto do ponto de vista social amplo, como do ponto de vista financeiro da organização. Além disso, colocam que a EI tem o objetivo de fazer com que a repercussão das atuais decisões industriais sejam consideradas boas, mesmo daqui a 20 ou 30 anos, considerando uma análise estratégica de longo prazo.

Na sexta fase, tem-se o desenvolvimento industrial sustentável. No pensamento externalizado do World Business Counceil for Sustainable Development (WBCSD), o processo de desenvolvimento sustentável tem o sentido de uma mudança de visão profunda na forma de agir das empresas, sendo um processo de adaptação harmônica da empresa às mudanças de contexto, de acordo com as necessidades emergentes da sociedade, onde o papel das lideranças executivas é o de focalizar o contexto de novos pressupostos para promover a articulação da nova visão da empresa, o que só é possível com uma alta maturidade do comportamento ambiental. Por esta forma de pensar, portanto, as decisões dos negócios voltadas ao desenvolvimento sustentável podem atender positivamente, ao mesmo tempo, tanto ao meio ambiente como à economia.

Provavelmente o único conceito aceitável para expressar a relação entre economia e ecologia que corresponda a um modelo de interseção, é o da ecoeficiência. A ecoeficiência tem como princípios os seguintes pressupostos de ação: reconhecimento de que não pode haver crescimento econômico em longo prazo, a menos que ele seja sustentável em termos de meio ambiente; confirmação de que todos os produtos, serviços e processos contribuem para um mundo sustentável; manutenção de credibilidade junto à sociedade, necessária à sustentação das operações da empresa; criação de um diálogo aberto com todos os parceiros, para identificar problemas e oportunidades e estruturar a credibilidade; proporcionar aos empregados um sentido para o que fazem, além do recebimento de salários, o que resulta no desenvolvimento das capacidades e no aumento da produtividade; e a manutenção da liberdade empresarial, através de iniciativas voluntárias em vez de coerções reguladoras pelo Estado.

A visão do desafio ambientalista compartilhada pelos que fazem o WBCSD está voltada para um horizonte muito além da prevenção da poluição. Essa compreensão advém de idéias que consideram a existência de iniciativas de empresas com metas de poluição zero para certas substâncias, em uma lógica similar às iniciativas de zero defeito da qualidade total.

Em suma, Schmidheiny & Zooraquín assumem uma posição que pode ser considerada visionária. Segundo ele, numa economia sustentável, as necessidades mundiais, e não as carteiras de produto, é que determinarão em que tipos de negócios devemos entrar e quais os que teremos de abandonar.

Sistemas de Gestão Ambiental (SGAs)

Como conseqüência da evolução das estratégias empregadas pelas organizações para lidar com as questões ambientais, tem-se múltiplas tarefas e responsabilidades ambientais, que geralmente surgem como medidas isoladas em virtude de desafios atuais ou mesmo de situações de emergência e que crescem, principalmente a partir da segunda fase do esquema evolutivo proposto, gerando, em muitos casos, uma coleção de medidas ambientais distribuídas por vários cargos e responsáveis. O resultado geral, com freqüência, não é nem muito sistemático nem eficiente.

É dentro deste cenário que deve ser considerada a necessidade do desenvolvimento dos SGAs (Sistemas de Gestão Ambiental), cujo objetivo é uma sistematização das ações voltadas ao meio ambiente, como também uma melhoria da eficiência do compromisso ambiental das organizações.

A gestão ambiental abrange, como parte da função gerencial total, todos os setores na organização necessários ao planejamento, execução, revisão e desenvolvimento de uma política ambiental da organização. A partir deste conceito derivam-se três características da gestão ambiental:

· Componente integrante da missão administrativa geral e dos responsáveis pela linha de produção;

· Expressão da própria vontade organizacional e das prioridades no setor ambiental;

· Instrumento para introduzir e executar a política ambiental.

Atendendo a esta demanda, a ISO publica em 1996 o primeiro conjunto de normas ambientais da série ISO 14000. Dentre estas normas, destaca-se a norma ISO 14001, revisada em 2004 referente a Sistemas de Gestão Ambiental - Requisitos com orientações para uso (Environmental Management Systems - Requirements with guidance for use), que como diz o seu texto introdutório, tem o objetivo de prover às organizações os elementos de um sistema de gestão ambiental eficaz, passível de integração com outros requisitos de gestão, de forma a auxiliá-las a alcançar seus objetivos ambientais e econômicos. Então, a certificação na norma ISO 14001 não é o fim, mas um meio para validar as operações de um Sistema de Gestão Ambiental.

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