Logomarca IETEC

Buscar no TecHoje

Preencha o campo abaixo para realizar sua busca

:: Meio Ambiente

Rumo à racionalidade ambiental

Enrique Leff

Ambientalista e ex-coordenador da Rede de Formação Ambiental para a América Latina e o Caribe do PNUMA

Revista Eco 21

Mais além da rejeição à mercantilização da natureza, é preciso desconstruir a economia realmente existente e construir outra, baseada em uma racionalidade ambiental. O que significa isto? A frase parte de uma constatação: a causa fundamental da crise ambiental, da degradação ecológica e do aquecimento global, é o processo econômico que atua como motor gerador de entropia, que acelera a morte do Planeta. Além disso, não é possível decrescer mantendo a mesma estrutura da economia, que impulsiona esta a continuar crescendo, incrementando seu consumo entrópico da natureza e destruindo as bases de sustentabilidade da própria economia e da própria vida.

Se estas afirmações são corretas, surge a pergunta sobre a possibilidade de recompor a economia, agregando-lhe normas ecológicas, inovações tecnológicas e contrapesos distributivos. Em outras palavras, é possível reequilibrar a economia dentro da própria racionalidade – teórica e instrumental, econômica e jurídica – que a constituiu? Da contradição entre economia e ecologia, desse impossível que seria o “desenvolvimento sustentável”, surge a inquietação de saber se outra economia é possível, se é possível criar outra racionalidade produtiva, baseada em outros princípios produtivos e em outros valores sociais.

Há mais de três décadas propomos uma reconstrução da economia baseada no principio de uma produtividade ecotecnológica sustentável, em uma racionalidade produtiva assentada nos potenciais da ecologia, da produtividade tecnológica e da criatividade cultural. Esta conjunção de processos suplantaria uma economia baseada no capital, no trabalho e na tecnologia como fatores fundamentais da produção, que desconheceram a trama ecológica que constitui as condições de sustentabilidade da economia e que exteriorizaram e desvalorizam a natureza, para coisificá-la e convertê-la em recursos naturais, em matéria-prima, em objetos de trabalho, em simples matéria e energia que alimenta o processo produtivo.

O conceito de entropia procede da termodinâmica: a quantidade de energia livre que se pode transformar em trabalho mecânico diminui de forma irreversível com o tempo. A transição para a sustentabilidade implica passar de uma economia entrópica para uma neguentrópica, isto é, baseada no princípio da vida: na capacidade fotossintética do Planeta, na organização ecológica de cada ecossistema e na organização cultural de cada território de vida.

Isso levaria a um balanço entre entropia e neguentropia nos processos produtivos.A racionalidade ambiental orienta para a construção de uma economia baseada na fotossíntese, que transforma a energia solar em biomassa. Mas não é simplesmente uma economia solar baseada em um uso mais intensivo de tecnologias e coletores solares. Trata-se de aproveitar o princípio de produtividade neguentrópica, para magnificá-la por meio da organização ecossistêmica do Planeta, e de orientar as inovações para tecnologias adaptadas à conservação produtiva e à oferta ecológica dos ecossistemas. Por outro lado, tampouco seria uma economia que teria passado da eficiência tecnológica para a ecoeficiência. Não é uma economia regida por uma racionalidade ecológica, mas por outros princípios e valores.

Uma economia baseada na produtividade ecológica é a do cuidado com a natureza, que enlaça a natureza, como fonte de vida e de produção, com uma ética e uma estética da natureza. É o passo de uma mitificação e adoração do natural para uma consciência de nossa natureza humana e uma ética da responsabilidade para a vida. A reconstrução da economia é um processo de resignificação da vida e da existência humana. A construção da sustentabilidade não é, portanto, uma simples gestão ecológica dos potenciais produtivos naturais. Implica numa reapropriação da natureza, e não apenas uma reapropriação produtiva.

A criatividade cultural não é apenas a da eficácia produtiva, mas também é a do sentido, dos valores dados à natureza como território de vida e espaço para a recriação da cultura. A racionalidade ambiental vai além da ecologização do pensamento e de um conjunto de instrumentos para uma eficaz administração do meio ambiente. Trata-se de uma teoria que orienta uma práxis a partir da subversão dos princípios que ordenaram e legitimaram a racionalidade teórica e instrumental da modernidade.

É uma racionalidade que integra o pensamento e os valores, a razão e o sentido; está aberta à diferença e à diversidade, busca desconstruir a lógica unitária e hegemônica do mercado para construir uma economia global, integrada por economias locais baseadas na especificidade da relação do material e do simbólico, da cultura e da natureza.

Indique este artigo a um amigo

Indique o artigo