Logomarca IETEC

Buscar no TecHoje

Preencha o campo abaixo para realizar sua busca

:: Inovação e Criatividade

"Precisamos criar linhas de produção de inovações"

Notícias Protec - 08/12/2009

Para o diretor da PROTEC, Roberto Nicolsky, a incorporação rápida e contínua de pequenas melhorias nos produtos é um critério mais relevante para a inovação que a originalidade

 

"Para promover a inovação tecnológica no Brasil é necessário aproximar empresa e universidade". Quantas vezes você já se deparou com esta frase em palestras e reportagens sobre inovação? Já parou para pensar que talvez a solução não seja esta? De acordo com este diagnóstico a partir da transferência de conhecimento da academia para o setor produtivo o Brasil vai passar a desenvolver produtos originais que poderão ser exportados aumentando a competitividade do País e garantindo seu crescimento. Será que esta linha de pensamento está mesmo correta?

Complexo de campeão

A inovação tecnológica acontece quando desenvolvemos um produto novo, certo? Errado. De um lado temos a invenção: o novo, o original, o inédito. De outro, a inovação, que é a introdução do novo em algo que já existe. Temos um produto inovado, portanto, quando aperfeiçoamos um modelo, quando introduzimos melhorias em um produto já existente. Para o diretor geral da Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica (PROTEC), Roberto Nicolsky, quando o assunto é inovação, a busca por originalidade só atrapalha.

"Esta filosofia é parte de nosso complexo de campeão: temos sempre que ser os mais criativos. O problema é que não se tem ideias geniais todos os dias. Os prêmios e editais que privilegiam a originalidade dos projetos de inovação prestam um enorme desserviço ao reforçar este modelo da criatividade e da inventividade, inviável como base para políticas públicas de inovação tecnológica. Mais que a grande ideia - rara e imprevisível - é importante buscar o crescimento da taxa de incorporação de pequenas inovações nos produtos, em um processo contínuo e diário, começando pela agregação das inovações introduzidas nos produtos concorrentes", afirma.

Nicolsky dá como exemplo a evolução do telefone celular, no início da década de 60, na Suécia, quando o aparelho pesava 40 quilos e era instalado em porta malas de carros. "A partir daí, houve uma agregação contínua de pequenas melhorias até o celular se transformar no que é hoje. Os celulares de última geração envolvem cinco mil patentes, e nenhum dos atuais fabricantes foi o que criou o sistema", explica. Segundo ele, o desenvolvimento de inovações se reflete no crescimento do Produto Interno Bruto do país e no aumento da exportação de produtos de alta intensidade tecnológica, com maior valor agregado. E, para que isso aconteça no Brasil, temos que privilegiar o aperfeiçoamento de processos e produtos e não a originalidade. "Qual foi o produto original lançado pela Coreia nos últimos 40 anos?", provoca.

Segundo o diretor, a inovação deve ser incorporada sem demora para vencer a concorrência. "O produto gerado a partir da invenção original, que exige investimentos de longo prazo, é ultrapassado rapidamente pelo concorrente que inova. A busca pela ideia inédita, estimulada por quase todos os editais de inovação, deveria ser substituída pelo critério de rápida inserção no mercado. Ao contrário do que diz o senso comum, inovação não tem a ver com a criatividade do inventor, e sim com a capacidade da empresa de atender antes da concorrência as demandas do mercado. Inovação tem a ver com competência tecnológica", afirma.

Transferência de conhecimento

A natureza da inovação comparada com o tipo de conhecimento utilizado para desenvolvê-la foi tema de estudo do teórico russo Altshuller, que chegou às seguintes conclusões: o conhecimento científico é usado em 1% dos produtos, resultado de descobertas raras, e o conhecimento específico sobre uma dada tecnologia gera 9% dos produtos, que são invenções. As inovações são responsáveis pelos outros 90%, divididas entre 15% de melhorias fundamentais no sistema existente, que usam o conhecimento de dentro e de fora da empresa; 25% de pequenas melhorias em sistemas existentes, que usam apenas o conhecimento de dentro da empresa; e 50% de soluções de problemas rotineiros de projeto, resolvidos apenas com o conhecimento da especialidade.

Do ponto de vista do aumento da competitividade da empresa, portanto, não precisamos de conhecimento novo, mas sim da incorporação do conhecimento existente, segundo Nicolsky. "Em um primeiro estágio, a inovação precisa ser novidade para a própria empresa e para o produto, para garantir o diferencial que a concorrência já tem. A partir daí, a empresa pode passar a incorporar inovações usando o conhecimento disponível, por exemplo, em entidades que prestam apoio tecnológico. Isso faz parte da aprendizagem. Somente depois de passar por vários estágios a empresa é capaz de desenvolver projetos mais complexos de inovação tecnológica", explica.

Para ele, a universidade pode fazer parte do processo de inovação em casos específicos, como quando atende demandas de setores de ponta. "Setores de ponta no Brasil, como a aviação comercial ou a indústria petrolífera, precisam do auxílio da universidade para continuar a inovar, mas a maior parte das empresas, principalmente as pequenas, não tem a menor condição - ou necessidade - de absorver o conhecimento produzido em universidades. O lugar da inovação é a própria empresa, com apoio tecnológico de instituições familiarizadas com o mercado, como o Senai", defende Nicolsky.

Políticas públicas

O apoio à inovação, segundo o diretor da PROTEC, depende da compreensão de que o aumento da taxa de inserção de produtos aperfeiçoados no mercado é um critério muito mais relevante do que a originalidade, e investir na universalização do apoio direto à empresa e a entidades que prestam apoio técnico e tecnológico é muito mais efetivo que insistir em usar a universidade como intermediária do processo. Esta compreensão, de acordo com Nicolsky, pode ser traduzida em ações imediatas como a modificação de critérios de editais que hoje privilegiam a pesquisa científica aplicada em detrimento da inovação tecnológica.

"Precisamos também promover a criação de verdadeiras linhas de produção de inovações nas empresas. Enquanto a primeira inovação é lançada no mercado, a segunda é incorporada à produção e uma terceira já pode estar em pesquisa e desenvolvimento, em um processo contínuo e rápido", propõe. Segundo ele, porém, para que este modelo prevaleça é necessário modificar profundamente as atuais políticas públicas de apoio à inovação. "Se o objetivo do Governo é aumentar a competitividade e acelerar o crescimento do Brasil, terá que elaborar programas de apoio à inovação em conjunto com o setor produtivo e eleger instituições mais próximas da indústria, como o BNDES, por exemplo, para dialogar com as empresas", argumenta.

Indique este artigo a um amigo

Indique o artigo