Logomarca IETEC

Buscar no TecHoje

Preencha o campo abaixo para realizar sua busca

:: Meio Ambiente

A roda da Sustentabilidade Empresarial

Ricardo de Miche

Consultor, auditor, professor universitário e colunista da Revista Banas Qualidade Ambiental

Durante muitos anos, décadas, séculos, o homem acreditou que pudesse viver e perpetuar sua espécie de forma natural: a vida se renovaria e os recursos naturais seriam abundantes para todos, afinal, sobreviver e perpetuar a espécie humana está no DNA do homem. Era possível evoluir retirando da natureza tudo aquilo que fosse necessário, sem preocupação.


O tempo passou e a vida sobre o nosso planeta, mudou. A teoria "para alguém ganhar, alguém deve perder" estava em prática. Ações humanas decorrentes da corrupção, da política injusta, da ganância e do egoísmo, geraram guerras, pobreza e males irreparáveis ao planeta.

A ânsia do homem pelo desenvolvimento e pelo poder e a constante necessidade de sobrevivência fez com que governos e empresas se mobilizassem, de forma inconseqüente, para a produção de bens de consumo, agredindo a vida de forma quase absurda. Problemas como a miséria, o aumento da temperatura do planeta, a escassez de recursos naturais e a diminuição da biodiversidade passaram a afetar negativamente a vida do homem, criando uma crise ambiental sem precedentes.
O fato é que foi preciso sofrer na pele para percebermos tal crise. Enquanto boa parte das pessoas do planeta continua alheia a tudo, vários grupos formados por cientistas, ONGs, governos, nações, empresas e consumidores estão se mobilizando para salvar a nossa casa comum.

Como forma de entender melhor os principais fatos que incluíram definitivamente a Sustentabilidade na vida das pessoas, os próximos parágrafos terão a missão de ilustrá-los dentro do que chamaremos de "Linha do Tempo do Desenvolvimento Sustentável". Na década de 70, começaram a surgir publicações científicas a respeito dos desequilíbrios causados, na Terra, pelo avanço do modelo de industrialização adotado pelo homem.

A mais famosa obra, "Os Limites do Crescimento", de autoria do "Clube de Roma", grupo formado por intelectuais e empresários, ganhou destaque internacional quando fez parte das discussões da Conferência das Nações Unidas de Estocolmo em 1972. A publicação, focada na preservação ambiental, apresentava quatro temas centrais, crescimento populacional; crescimento industrial; escassez de alimentos e escassez de recursos naturais, que necessitavam de controle urgente para a retomada do equilíbrio ambiental.

Em 1983, as Nações Unidas criaram a Comissão Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento. Presidida por Gro Bruntland, o trabalho da Comissão gera como resultado, em 1987, o "Relatório Bruntland" ou "Nosso Futuro Comum", como também ficou conhecido. O documento deixava claro que para satisfazer as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de satisfazer suas necessidades, deveria haver equilíbrio entre o crescimento econômico e a proteção ao meio ambiente. Nasce o conceito "Desenvolvimento sustentável" que anos mais tarde passou a ser adotado como termo oficial nos documentos da ONU.

Influenciada pelo Relatório Bruntland, a Assembléia Geral das Nações Unidas convocou a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento. Esta Conferência aconteceu no Rio de Janeiro em 1992 e ficou conhecida como Eco 92 ou Cúpula da Terra. Algumas saídas se deram nesta Conferência, sendo a mais importante, a aprovação do documento "Agenda 21". Preparar o mundo para os desafios do século XXI por meio de um plano de ação que enumere os objetivos a serem atingidos pelas sociedades para sustentar a vida no planeta; este é o objetivo da Agenda 21 que segue o princípio de "Pensar globalmente, agir localmente". Outras Conferências das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, como a Rio+5 e Rio+10, aconteceram respectivamente em 1997 e 2002 (Johanesburgo), objetivando revisar a implementação da Agenda 21, reafirmar compromissos e propor novas ações.

Em 1997, criou-se a Comissão da Carta da Terra. A idéia surgiu ainda na Eco 92 em função do descontentamento de organizadores da ONU e de Mikhail Gorbatchev, diretor da Cruz Verde Internacional, com o não aceite da Carta da Terra. Composta por personalidades de vários países, o Brasil foi representado pro Leonardo Boff, a Comissão escutou milhares de pessoas de diversas comunidades espalhadas pelo mundo e em 2000, no espaço da UNESCO, em Paris, a Carta da Terra foi aprovada. Segundo Leonardo Boff, a Carta da Terra é "um dos textos mais completos que se tem escrito ultimamente, digno de inaugurar o novo milênio.Recolhe o que de melhor o discurso ecológico produziu, os resultados mais seguros das ciências da vida e do universo, com forte densidade ética e espiritual. Tudo é estruturado em quatro princípios fundamentais, detalhados em 16 proposições de apoio. Estes são os quatro princípios: respeitar e cuidar da comunidade de vida; integridade ecológica; justiça social e econômica e democracia, não-violência e paz".

Ainda em 2000, a Organização das Nações Unidas promoveu a Assembléia do Milênio. Este encontro reuniu 191 delegações e contou com a presença dos principais chefes de estado do mundo. O debate resultou na Declaração do Milênio, documento que consolidou várias metas estabelecidas nas conferências mundiais ocorridas na década de 90, propondo objetivos para a erradicação da pobreza no mundo. Oito objetivos gerais foram identificados: Erradicar a extrema pobreza e a fome; atingir o ensino básico universal; promover a igualdade de gênero e a autonomia das mulheres; reduzir a mortalidade infantil; melhorar a saúde materna; combater o HIV/AIDS, a malária e outras doenças; garantir a sustentabilidade ambiental e estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento. Em 2006, a ONU estipulou, ao Brasil, um nono objetivo: "igualdade entre brancos e negros". A intenção é que os estados membros das Nações Unidas não meçam esforços para cumprir os ODM (Objetivos da Declaração do Milênio) até 2015.

Também no final do século XX, a ONU lançou a idéia de parceria entre as Nações Unidas, ONGs e empresas com o objetivo de obter convergência entre as práticas do setor privado e valores universais. A idéia ganhou corpo e nome: Global Compact ou Pacto Global. Fundamentado na Declaração Universal de Direitos Humanos, na Declaração da Organização Internacional do Trabalho e na Declaração do Meio Ambiente de Desenvolvimento (Eco 92), o pacto visa criar uma economia global mais inclusiva e sustentável e baseia-se em dez princípios: Respeitar e proteger os direitos humanos; impedir violações de direitos humanos; apoiar a liberdade de associação no trabalho; abolir o trabalho forçado; abolir o trabalho infantil; eliminar a discriminação no ambiente de trabalho; apoiar uma abordagem preventiva aos desafios ambientais; promover a responsabilidade ambiental; encorajar tecnologias que não agridam o meio ambiente e lutar contra toda forma de corrupção. Várias empresas aderiram ao pacto tornando-se signatárias; entre elas a Coca-Cola, Citibank, Petrobras, Natura, entre outras.

Podemos entender, baseado no descrito até aqui, que Sustentabilidade é a sustentação da vida no planeta, no seu sentido mais amplo, e o caminho a ser trilhado é o Desenvolvimento Sustentável. Neste contexto, as empresas exercem um importante papel. Espera-se que as empresas sejam éticas e transparentes e que estes atributos possam ser comprovados por suas partes interessadas (stakeholders). Desta forma, empresas precisam se profissionalizar buscando o estado da arte da gestão, sendo o caminho, a Responsabilidade Social.

Percebemos, nos últimos anos, uma evolução significativa na conceituação e práticas da Responsabilidade Social Empresarial ou RSE. Esta nova forma de administrar está ganhando corpo e consistência e contribuindo para que empresas se tornem mais éticas, justas, transparentes e eficientes ao longo dos anos. Integrar aos aspectos econômicos, os aspectos sociais e ambientais passou a ser uma realidade e tem contribuído para identificar sob quais condições os lucros foram obtidos. Essa estratégia mostra respeito aos stakeholders e consolida o movimento da RSE. A princípio, movimentar-se por meio da RSE, faz com que empresas saiam da zona de conforto. Torna-se necessário, romper a inércia.

A Física Quântica explica que tudo está em desequilíbrio para o movimento dinâmico em escala maior, e nada é uniforme, retilíneo, simétrico e idêntico. O fato de caminhar é um exemplo rotineiro de desequilíbrio: para nos locomover, o primeiro passo é o rompimento com o repouso da posição parada, no qual projetamos nosso peso em uma direção e inconscientemente ajustamos o equilíbrio para não cairmos, alternando a cada passo, o peso com o movimento, graças a um delicado sistema neural que "nivela" o corpo em seu eixo, daí a importância do alinhamento da coluna vertebral em toda sua extensão. Sem este sensível mecanismo de compensação, o menor movimento de um corpo hipoteticamente parado e equilibrado, faria com que a gravidade o atraísse sistematicamente para o chão e despencasse até se harmonizar novamente com a pressão recebida.
Empresas, assim como os seres vivos, são organismos vivos e complexos e estão em constante movimento. Movimentam-se para a conquista de objetivos e metas, para a conformidade legal, para a adequação a um novo cenário de mercado, para serem únicas, movimentam-se para perpetuarem ao longo do tempo, porém, tais movimentos geram desequilíbrios, conforme mostrado na figura 1.

O desequilíbrio mostrado impede que a Roda rode comprometendo a trajetória da empresa rumo ao Negócio Sustentável. Os impactos deste desequilíbrio são sentidos pela empresa, por exemplo, na forma de multas por descumprimentos à legislação aplicável, dificuldades de acessar novos mercados por irresponsabilidade na gestão da Sustentabilidade, geração de passivos de diversas naturezas, exigência de seguros mais altos em função do risco percebido, entre outras formas tão críticas como as mencionadas.

Apesar de necessário e desejável em períodos de expansão ou de adaptação a um ambiente de negócios mutável, o desequilíbrio deve ser compensado no momento seguinte. Como qualquer ser vivo, a empresa deve buscar o equilíbrio entre suas funções básicas para se manter ao longo do tempo. Torna-se prudente e responsável, a adoção de um modelo de gestão estratégica e de ferramentas de gestão capazes de identificar e corrigir eventuais desequilíbrios e impulsionar a empresa rumo à longevidade. Sua organização aceita o desafio de equilibrar a Roda da Sustentabilidade Empresarial?

Referência
Gestão do conhecimento: compêndio para a sustentabilidade: ferramentas de gestão de responsabilidade socioambiental - organização Anne Louette - São Paulo: Antakarana Cultura Arte e Ciência, 2007

Indique este artigo a um amigo

Indique o artigo