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Tecnologias

'Anjos do Google' apostam em inovação

BusinessWeek - 01/03/2010

Durante as festas de fim de ano, Aydin Senkut e Elad Gil reuniram 50 amigos em um restaurante de comida natural em Palo Alto, na Califórnia. Em meio a sanduíches de peru e tofu, eles discutiram as tendências tecnológicas e o que deveriam fazer para ficar ricos. Ou melhor, mais ricos.

Senkut, Gil e seus convivas são ex-funcionários do Google, um dos maiores motores da criação de riqueza que os Estados Unidos já conheceram. Desde que abriu o capital, seis anos atrás, o Google gerou mais de US$ 170 bilhões para seus funcionários e investidores. Muitos dos milionários que a companhia produziu são jovens, ligados às novidades tecnológicas e sem medo de assumir riscos. O que explica por que tantas "crias" do Google são "angel investors" ativos, que tentam acrescentar mais um zero às suas contas bancárias e outra companhia inovadora às suas listas de realizações. "Sinto que temos uma rede forte. É como se tivéssemos criado um Google fora dos muros do Google", diz Andrea Zurek, uma investidora de 39 anos que apoia 26 companhias iniciantes.

Mais de 40 ex-googlers já investiram em cerca de 200 companhias iniciantes desde 2005, segundo estudo do instituto de pesquisas YouNoodle. Pelo menos meia dúzia de atuais executivos do Google, incluindo o executivo-chefe Eric Schmidt e os co-fundadores Larry Page e Sergey Brin, também financiam companhias jovens.

Ao contrário de muitos capitalistas de risco, os "googlers" gostam de trocar ideias sobre investimentos e apoiar juntos as companhias iniciantes. "Eles se aventuram em negócios muito arriscados que podem ser extremamente compensadores", diz Jeff Clavier, um veterano investidor que fundou a SoftTech em 2004. "Nos últimos dois ou três anos eles vêm sendo um grupo muito ativo."

Os resultados têm sido impressionantes. As companhias apoiadas pelos "googlers" incluem o Twitter, a Tesla Motors e a desenvolvedora de jogos Tapulous. "À medida que o Google amadurece, suas crias continuam tendo um grande impacto sobre o setor de tecnologia", diz Ron Conway, um dos investidores mais ativos do Vale do Silício, que apoia 190 companhias, entre elas o Google, o Facebook e o Twitter.

Um motivo do sucesso desses investidores é que os "angels" do Google têm mais a oferecer a empresários com problemas do que apenas dinheiro. Bart Decrem, formado em direito pela Universidade Stanford, voltou-se para a rede Google quando estava iniciando a Tapulous em 2008. O jogo "Tap Tap Revenge", da companhia, exige que os jogadores deem, ao ritmo de uma música, tapinhas em bolas que aparecem na tela do computador - o que não é exatamente uma ideia com garantia de sucesso. Mas Decrem imaginou que o jogo poderia se transformar em um negócio substancial se ele o vendesse para o iPhone, da Apple. Ele captou US$ 500 mil com uma dezena de investidores, que incluíram Senkut e Zurek, que o aconselharam na estratégia, colocaram a companhia em contato com novos sócios na Ásia e a ajudaram a explorar plataformas para telefones móveis que usam o sistema Android, do Google. Hoje, os jogos Tap Tap já foram baixados mais de 25 milhões de vezes e a Tapulous é uma companhia sólida, com receita mensal de US$ 1 milhão.

Os "anjos" do Google se aventuram em uma variedade de negócios. Zurek tem dinheiro investido em uma fabricante de vodca e uma empresa de iogurtes congelados da Coreia do Sul. Mesmo assim, os "angels" tendem a concentrar os investimentos no que eles conhecem - tecnologia de busca, computação móvel e internet. Apoiado pelo ex-executivo do Google Chris Sacca, o Twitter já é a companhia iniciante sensação do Vale do Silício, pioneira em um novo campo das comunicações em tempo real. A Mint.com, uma empresa que presta serviços financeiros on-line, que recebeu dinheiro de Senkut, mostrou-se tão popular que a líder de mercado Intuit a comprou por US$ 170 milhões em 2009 e fez de seu fundador, Aaron Patzer, um dos principais executivos. A provedora de serviços de busca Powerset, apoiada por Senkut, foi adquirida pela Microsoft em 2008, e sua tecnologia tornou-se uma peça-chave do mecanismo de busca Bing.

Até agora, o "anjo" mais ativo do Google tem sido Senkut, um turco de 40 anos que já investiu entre US$ 25 mil e US$ 150 mil em mais de 60 companhias iniciantes. Senkut começou a trabalhar no Google em 1999, como o 63º funcionário contratado. Ele saiu em 2005 e logo em seguida levou sua mãe para Paris, para a comemoração de seu 60º aniversário, comprou duas mansões na área da Baía de San Francisco e se presenteou com um Lamborghini.

Ele então passou a ser um investidor em período integral. Senkut é sempre o primeiro investidor por trás de uma ideia, e até agora 11 das companhias iniciantes que ele ajudou a fundar foram compradas por empresas como o Google, a AT&T e a Microsoft. Senkut também encoraja os investimentos de outros, organizando dois eventos regulares, um voltado para investidores e empresários e o outro para ex-funcionários do Google. Senkut está levantando dinheiro para sua empresa, a Felicis Ventures, segundo dois "angel investors", e não estava disponível para fazer comentários. No entanto, numa entrevista em outubro de 2009, antes da venda de quatro de suas companhias, Senkut disse que seus investimentos haviam produzido retornos anualizados de dois dígitos e que, na ocasião, ele estava analisando ideias novas de investimento.

Se Senkut é a maior estrela entre os "anjos" do Google, Chris Sacca é uma estrela em ascensão. Esse advogado de 34 anos entrou para o Google em 2003 e saiu em 2007. Das 31 companhias iniciantes que ele apoia, seu maior sucesso é o Twitter, na qual investiu US$ 50 mil, em 2007. Sacca trabalha em casa, uma mansão de 915 metros quadrados em Truckee, na Califórnia. Ele faz caminhadas todas as manhãs, antes do café, e viaja para San Francisco a cada duas semanas, onde permanece por três dias. É uma maneira pouco convencional de supervisionar os investimentos, mas Sacca tem uma postura pouco convencional em relação aos investimentos.

Numa noite de sexta-feira em dezembro de 2008, ele postou uma mensagem no Twitter perguntando se alguma companhia iniciante estava trabalhando até tarde. "Nós respondemos: somos a FanBridge e trabalhamos duro toda noite de sexta-feira", diz Spencer Richardson, um dos fundadores. A FanBridge produz um software que ajuda músicos a gerenciar suas relações e seu marketing com os fãs. Poucas semanas depois, Sacca pegou um avião para Nova York, para uma reunião com os fundadores da companhia. "Eles tinham outros empregos durante o dia e fizeram esse site que tinha 20 milhões de usuários e que ganhava 100 mil novos usuários por dia", diz Sacca. "Era uma aposta óbvia."

Nos meses seguintes, Sacca investiu US$ 50 mil e arrecadou várias centenas de milhares de dólares com outros investidores. No ano passado, os fundadores da FanBridge consideraram a possibilidade de oferecer seus produtos para escritores, comediantes e outros artistas; Sacca os aconselhou a permanecer concentrados na indústria da música. Hoje, a FanBridge é lucrativa e usada por 55 milhões de aficcionados por música. "O retorno que tivemos dele foi 'comecem sendo os melhores em alguma coisa e depois diversifiquem'", diz Richardson.

Os chamados "Google angels" podem ter várias outras futuras empresas de sucesso sendo desenvolvidas. Sacca investiu na Lookout, empresa que desenvolve programas de segurança para telefones móveis. Vários ex-googlers e a atual vice-presidente Marissa Mayer estão por trás da Square, cujo objetivo é substituir as tradicionais máquinas de cartão de crédito por um sistema de pagamentos mais barato que funciona via telefone celular. E um atual funcionário do Google, Joshua Schachter, ajudou a financiar a Foursquare, um serviço de telefonia móvel que permite a amigos compartilhar dicas sobre locais badalados e que está sendo usado mais de 1 milhão de vezes por semana. "O que nos motiva é a inovação", diz Zurek.

Paul Graham, um dos fundadores da companhia iniciante Y Combinator, acredita que o setor de tecnologia apenas começou a perceber que os ex-funcionários ricos do Google poderão não ter apenas um segundo ato de inovações, e sim, potencialmente, centenas de outros atos. "Quando as pessoas escreverem a história do Vale do Silício daqui 20 anos, o verdadeiro impacto do Google poderá vir mais de todas as coisas que as pessoas fazem depois que deixam a companhia", diz. (Tradução de Mário Zamarian)
 

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