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Sustentabilidade

Economia socioambiental e as eleições

Ronaldo Gusmão

Diretor-executivo do Ietec, idealizador e coordenador da Conferência Latino-Americana sobre Sustentabilidade (Ecolatina)

O pensamento econômico convencional é incompatível com a física e com a biologia. Para este, o mundo é plano e infinito, pois advoga um crescimento econômico sem limites. Ao propor um crescimento econômico sem limites estamos violando a segunda lei da termodinâmica, que diz que a entropia do universo aumenta, isto é, que a quantidade de energia num sistema isolado, como o universo, tende a se degradar, tornando-se indisponível para a realização de trabalho.

Cada sistema biológico tem uma capacidade regenerativa em um determinado intervalo do tempo. Uma floresta leva anos para formar-se. Em contrapartida, alguns resíduos, como o plástico, podem levar centenas de anos para se decompor, a água utilizada precisa de inúmeros processos para voltar a ser potável, etc. E hoje já consumimos mais de 30% da capacidade de regeneração do planeta.

O crescimento econômico é medido pelo Produto Interno Bruto (PIB), que é o somatório de bens e serviços vendidos e comprados num determinado espaço de tempo. Portanto, não serve mais como medida de desenvolvimento sustentável, pois não leva em consideração o meio ambiente e as pessoas. Isto é, o capital natural e o social.

Tomemos como exemplo um determinado município onde todos os donos das terras resolvessem vender toda a madeira para uma siderúrgica, não deixando absolutamente nenhum árvore. O PIB deste município seria alto naquele ano, mas o custo ambiental e social não foram contabilizados. Provavelmente, este município não produziria mais serviços ambientais, como água boa, ar puro, comida, etc.

Como consequência, seria muito difícil de ser habitado como antigamente, seus moradores teriam que ir para a cidade mais próxima aumentando assim o índice estatístico de alguma favela.

Em outro caso, suponhamos que um médico deste mesmo município resolvesse tratar toda a população de graça e com isso a qualidade de vida das pessoas melhorasse significativamente. O PIB não registraria nenhum aumento, pois não houve venda de serviços. Entretanto, se este médico realizasse uma única operação em uma pessoa muito rica, e este resolvesse pagar uma quantia vultuosa pelo serviço, o PIB com certeza teria um crescimento.

Considerando que no período eleitoral há uma convergência de forças que visam o desenvolvimento de um país, como fazer a nossa escolha de forma a auxiliarmos na criação de políticas públicas sustentáveis e na implantação das já existentes? Como está a nossa consciência política? Estamos cientes do nosso papel de cidadãos com capacidade para criticar e escolher? Ou podemos nos considerar “analfabetos políticos”, que, parafraseando Brecht, é aquele que se recusa a tomar uma posição frente ao sistema e se torna responsável pela formação de “todo o mal”?

Ao eleger um candidato, é necessário pensar em uma economia socioambiental. Neste cenário, o mundo é esférico, finito e com sete bilhões de seres humanos que deveriam realizar todos os dias suas necessidades básicas de sobrevivência: comer, beber, vestir, ter um abrigo etc.

É necessário que tanto os eleitores quanto os candidatos entendam que a sociedade atual possui diversas formas de capital: o capital natural, que compreende todos os recursos e serviços ambientais; o capital humano, que é a capacidade e saúde das pessoas; o capital social, constituído pelas estruturas e relações institucionais; o capital estrutural, composto pelos equipamentos, infraestrutura e materiais para gerar produtos e serviços; e, por último, o capital financeiro, que permite estocar valor e ser instrumento de troca.

E qual é o maior estoque de capital no Brasil? O meio ambiente natural é disparado o nosso maior patrimônio atual. Com investimentos sistêmicos em educação num intervalo de 20 anos poderemos transformar os quase 200 milhões de brasileiros em nosso maior capital. Com pequenos ajustes em nosso capital social, não seremos o povo mais rico do mundo, mas, certamente, o mais feliz. Uma nação multicultural e altamente espiritualizada.

A crise financeira de setembro de 2008 foi uma crise gerada pela falta de transparência das instituições financeiras que fizeram investimentos em derivativos sem lastros reais. A crise que estamos começando a viver com as alterações climáticas causadas pela emissão dos gases de feito estufa (GEE) é também falta de transparência, já que os GEE não são contabilizados.

Com transparência, poderemos contabilizar os passivos ambientais e sociais causados pelo atual modelo de produção e consumo vigentes, nos possibilitando fazer escolhas corretas. Com transparência, poderemos alcançar o desenvolvimento sustentável, que é, acima de tudo, um meio para chegar a uma sociedade solidária. Poderemos ter um país sustentável, um estado sustentável, municípios sustentáveis e, principalmente, famílias e pessoas sustentáveis. Não sustentadas.

Portanto, toda vez que ouvirmos falar de PIB e crescimento econômico devemos questionar imediatamente se este crescimento proporcionará desenvolvimento, progresso, ou se estamos queimando os estoques de capital social e ambiental, que, na realidade, não pertencem apenas às nossas gerações, mas, principalmente, às gerações futuras.

É tempo de escolha. Escolher uma economia socioambiental é o melhor para todos. Para isso, precisamos de ética, transparência e de políticas públicas de qualidade, sistêmicas e perenes.  Precisamos de consciência social e ambiental. Precisamos de alfabetização política.
 

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