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Inovação tecnológica pode ser obtida pela imitação

Glauco Arbix e Zil Miranda

 

Glauco Arbix é professor do Departamento de Sociologia, USP e Zil Miranda é doutoranda do Departamento de Sociologia, USP. Ambos são pesquisadores do Observatório de Inovação do Instituto de Estudos Avançados-USP.

Com o título "Imitação é mais valiosa do que inovação", Oded Shenkar, diretor da Ford Automóveis e professor da Universidade de Ohio, em entrevista para a "Harvard Business Review", enfatizou como a imitação é altamente relevante para o avanço tanto dos negócios quanto da ciência. Sua defesa baseou-se em levantamento sobre modelos de negócio e pesquisas científicas que detectou o valor fundamental da imitação para gerar os bons resultados alcançados.

Entre os casos estudados destacaram-se as experiências da rede Walmart (que se inspirou no Korvette); do McDonald s (que se baseou no White Castle); no Visa, MasterCard e American Express, que teriam seguido as trilhas desbravadas pelo Dinners Club; e ainda a Apple, que quase sempre trabalha aprimorando ideias lançadas por outras empresas.

Os resultados da pesquisa rejeitaram as visões simplistas que relegam a imitação a um posto de menor prestígio na atividade empresarial e na academia. Na pesquisa básica, tida como o universo nobre da geração do conhecimento, o pesquisador, em vários momentos, precisa apreender e repensar a tese de outros para evoluir em sua trajetória. Nas empresas, processo semelhante leva as empresas a incorporarem inovações disponíveis no mercado, para que sejam capazes de reprocessar e relançar produtos e serviços de nível superior.

Shenkar tomou a imitação como uma atividade complexa, que envolve ousadia e criatividade. Na economia, sem essa capacidade de absorção do novo, muitas vezes gerado por outras firmas, não haveria, por exemplo, o que simplificadamente se denomina de "transferência de tecnologia". As entrevistas de Steve Jobs (da Apple) sobre o iPad, ao relatar seu débito com o Kindle da Amazon (leitor de livro), ou o modo como incorporou e foi além das primeiras experiências de MP3 players, ou o sucesso do iPhone (anos após a existência do celular), ilustra o esforço criativo necessário para aperfeiçoar bens já disponíveis no mercado.

Claro, é preciso estar em sintonia com as novas tendências para reprocessar produtos com charme e inteligência. Mas para isso o segredo nem sempre está na busca de alta tecnologia ou de inovações de ruptura, e sim na qualidade dos funcionários, da engenharia, na facilidade com que o conhecimento e a informação fluem no interior das empresas. Em ambientes abertos ao novo, a imitação não é vista como subproduto, mas como requisito para a inovação; não é estigmatizada, mas desejada.

Para países emergentes como o Brasil, cujas economias não atuam na fronteira do conhecimento, a imitação, longe de mostrar-se trivial, é atividade-chave para dinamizar a pesquisa e a competitividade das empresas. Principalmente porque pode viabilizar processos de aprendizagem tecnológica e de capacitação que seriam praticamente impossíveis de outra forma.

São vários os estudos que mostram como a China mantém há décadas um acelerado crescimento em muito baseado na imitação. O Brasil também fez - e ainda faz - uso intensivo desse recurso, ainda que não pareça ser motivo de orgulho. A Pesquisa sobre Atitudes Empresariais para Desenvolvimento e Inovação (Paedi), patrocinada pelo Ipea e pelo Cebrap mostrou como representantes de empresas (presidentes, diretores e gerentes) identificaram na inovação - via pequenas mudanças em produtos ou processos - a responsável pela geração de valor e de retorno do investimento.

Pelos argumentos de Shenkar ousaríamos dizer que muitas empresas brasileiras inovam ao imitar, mas nem sempre reconhecem a importância dessa escolha, dado o preconceito existente. Duas evidências da Paedi corroboram essa afirmação: 1) é alto o número de empresas que atribui importância à participação em feiras internacionais, em busca de novas tendências de mercado; 2) várias dessas empresas declararam sua intenção de competir no exterior. Para a economia brasileira, que tenta se livrar da tradição protecionista, a busca de contato e de absorção das práticas mais avançadas é passo essencial para a sua capacitação, diferenciação de seus produtos e salto para um desempenho sistematicamente inovador.

Não há receita milagrosa que leve à inovação. Mesclada com a boa engenharia, com maior investimento nas pessoas e gestão mais avançada, a imitação pode funcionar como peça-chave na elevação do padrão inovador.

No Brasil, o ambiente externo às empresas mudou para melhor nos últimos anos. Há muito ainda a fazer, principalmente na diversificação, desburocratização e ampliação das linhas e programas de financiamento. A universidade também pode contribuir para que a economia faça da inovação sua principal ferramenta de competitividade, pois não há outro meio de elevar o padrão de competitividade da nossa economia, de quebrar a dependência das commodities e de sustentar o crescimento.



 

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