Investimentos e Gestão de Projetos

Ronaldo Gusmão

A retomada do crescimento da economia em 2010 foi causada não só pelo aumento do consumo, mas, principalmente, pelos investimentos em novos projetos, como o Programa de Aceleração do Crescimento do Governo Federal (PAC); os investimentos privados em mineração e siderurgia e um dos maiores projetos em óleo e gás da Petrobras. Prova disso é que somente em 2009 o Brasil investiu US$ 261 bilhões em máquinas, equipamentos e construção, o equivalente a mais de 16% do Produto Interno Bruto (PIB), conforme aponta o Anuário Exame de Infraestrutura.

Segundo o documento, o país tem cerca de 1,2 mil empreendimentos  - entre projetos e obras em andamento -  com orçamento total de R$ 332 bilhões. Para a realização de todos estes projetos, e para que os mesmos possam gerar outras oportunidades no futuro, é preciso, antes de tudo, que os novos investimentos promovam o desenvolvimento sustentável e não o mero crescimento econômico. São necessárias, portanto,  pessoas capacitadas para determinar a qualidade nos resultados dos projetos.

Pesquisa realizada durante o 12º Seminário Nacional de Gestão de Projetos apontou que as áreas das empresas que mais usam metodologias de gerenciamento de projetos são Engenharia e Tecnologia da Informação e as que menos usam são Vendas, Marketing e Recursos Humanos. Fica evidente que esta lacuna impede um melhor aproveitamento dos recursos gerados pelos projetos na organização como um todo.

No contexto empresarial, a pesquisa mostrou que um dos maiores problemas dos projetos é o cumprimento dos prazos, o mesmo apontado na edição anterior, em 2008. A pesquisa mostrou, ainda, que em 86% das empresas os projetos não cumprem os cronogramas, em 69% apresentam problemas de comunicação e em 54% o escopo é mudado durante a execução. Para a realização de eventos, em que o prazo é determinante, como é o caso da Copa do Mundo, temos outro problema grave: o não cumprimento dos orçamentos – vide as olimpíadas do Rio de Janeiro.

Uma pesquisa realizada pelo PMI Brasil em 2009 mostra que 28% das organizações estouram o orçamento em mais de 10%, e, no caso da Copa, quem vai pagar a conta é a população brasileira. Para comprovar mais uma vez o que as pesquisas dizem basta verificar o desenvolvimento do principal programa do governo federal, o PAC, que está com a maioria dos projetos atrasados.

O segundo gargalo apontado é a comunicação inadequada, que impacta no desenvolvimento dos projetos. Quando se trata de um projeto como o da Copa do Mundo, por exemplo, em que é necessária uma comunicação entre os governos estaduais, municipais e federal, além da iniciativa privada e dos organizadores do evento, podemos ter grandes problemas de difíceis soluções.

Um dos motivos seria a falta de investimento em treinamentos. Das empresas consultadas, 75% não possuíam um programa formal de capacitação em GP para seus colaboradores, o que contrasta com pesquisa realizada no ano anterior à crise, em que 50% tinham programas de capacitação.

Esperamos que com a retomada dos investimentos as organizações voltem a formar seus profissionais.

E também esperamos que os profissionais busquem os treinamentos por conta própria. Afinal, de acordo com o levantamento de 2009, 50% das empresas exigem que os gerentes de projetos possuam curso superior e 20% dão preferência aos que têm pós-graduação. A certificação é requerida por 3% das organizações. Para estas empresas, os benefícios obtidos com uma metodologia de GP são muitos, como maior comprometimento com objetivos e resultados (58%) e melhoria de qualidade nos resultados dos projetos (51%).

Seja por meio do setor de RH das organizações ou por iniciativa própria dos empregados, uma coisa é certa: somente com profissionais experientes e capacitados a gestão de projetos tem sucesso. Mas onde buscar estes profissionais? Não temos alternativas, temos que formá-los.

Precisamos trazer para o mercado de trabalho os engenheiros formados há mais tempo e que abandonaram a engenharia justamente por falta de investimentos, oferecendo a estes profissionais uma formação adequada; temos, além disso, que formar o multiespecialista com muita educação, treinamento, leitura e profundo censo de oportunidade e atitude para aplicar seus conhecimentos no dia a dia das empresas e instituições governamentais.

E justamente agora que mais precisamos de inovação – inovação nos processos, nos produtos e na maneira de fazer negócios – recebemos a infeliz notícia de que o Brasil caiu 18 posições no ranking mundial da inovação de 2009, passando de 50º para 68º colocado. Alinhar novos investimentos, inovação e gestão de projetos é o caminho mais correto a ser trilhado rumo à sustentabilidade. É necessário recuperar o tempo perdido!